Fonte: Valor Econômico
O ministro Guido Mantega oficializou, ontem, a mudança na cúpula do Ministério da Fazenda e anunciou, em uma nota de poucas palavras, a saída de Nelson Barbosa da Secretaria Executiva em junho. Um dos principais formuladores da política econômica e segundo na hierarquia do ministério, Barbosa não é o único dos influentes técnicos do segundo escalão que deixarão o governo.
Beto Vasconcelos e Cezar Alvarez, secretários-executivos da Casa Civil e do Ministério das Comunicações, respectivamente, saem no segundo semestre. O secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Alessandro Teixeira, cuja demissão foi suspensa pela presidente Dilma Rousseff há dois dias, poderá ser deslocado para um outro posto.
Dos quatro pelo menos três deixam o governo por desgastes com os respectivos ministros. Alvarez explicou ao Valor que sairá não por causa de eventuais divergências com o ministro Paulo Bernardo, mas para concluir, em uma universidade americana, sua tese de doutorado sobre educação e tecnologia da comunicação.
Assessores próximos da presidente Dilma insistem que se trata de mera “coincidência” e que esse movimento não se configura uma diáspora. Beto Vasconcelos e Cezar Alvarez já haviam informado seus planos de estudar no exterior. Todos, porém, têm um perfil comum: no governo Lula e na campanha que elegeu Dilma Rousseff, eram vistos como técnicos talentosos, competentes e que ocupariam espaços importantes na administração. Barbosa e Teixeira chegaram a frequentar as listas de ministeriáveis e Vasconcelos foi cogitado para o Supremo Tribunal Federal. Alvarez trabalhou diretamente com Dilma na Casa Civil.
Beto Vasconcelos sai da Secretaria-Executiva da Casa Civil para estudar no exterior
Barbosa, segundo avaliações do Palácio do Planalto, “ficou muito grande para o cargo”. Formulador de política econômica, ele também assumiu a interlocução de temas espinhosos com o Congresso, como a proposta de reforma do ICMS, a dívida dos Estados e a mudança na regra de correção da caderneta de poupança, entre outros. Barbosa iria tirar férias em maio, mas devido a um pedido do ministro concluirá projetos que estavam em andamento até seu afastamento em junho.
O arranjo de forças na equipe econômica ficou mais desfavorável a Barbosa com a ascensão do secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, que passou a ocupar espaço em discussões essenciais, como o programa de concessões de infraestrutura, e é visto hoje como a voz da presidente nas discussões do governo. A sua atuação se ampliou de tal forma que ele participa até de reuniões de dirigentes de centrais sindicais no Palácio do Planalto. Nesse caso, o “cargo ficou pequeno para o titular”.
O papel de Augustin na equipe não está definido. Chegou-se a cogitar de ele mesmo substituir Barbosa ou integrar o núcleo de coordenação da campanha pela reeleição de Dilma. O mais provável, porém, é que continue à frente do Tesouro e ajude na definição da política econômica do eventual segundo mandato da presidente. Na primeira eleição de Dilma, esse papel foi feito por Nelson Barbosa.
Nelson Barbosa: segundo avaliações do Planalto, “ficou muito grande para o cargo”
Mantega quer um economista para assumir a Secretaria Executiva, mas não há nomes definidos. Por enquanto, Dyogo de Oliveira, secretário-adjunto, responderá interinamente pela Secretaria Executiva da Fazenda. A nota divulgada por Mantega atribuiu a saída de Barbosa a “razões pessoais”.
Alessandro Teixeira reclamou a mais de um interlocutor que vinha perdendo espaço nas discussões internas do Ministério do Desenvolvimento. Segundo esses relatos, o ministro Fernando Pimentel vinha dando espaço crescente ao presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges, o que incomodou Teixeira. O vazamento de notícias desfavoráveis a Pimentel, como a carona que o ministro tomou no avião do empresário João Dória Júnior, no ano passado, foi atribuído por amigos do ministro a Teixeira, o que teria aumentado o afastamento entre ambos.
Beto Vasconcelos bateu de frente com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. No período em que o ex-ministro Antonio Palocci esteve na Casa Civil, Vasconcelos tinha mais espaço para decisões, o que foi reduzido com a troca de ministros. Servidores da Casa Civil não descartam a possibilidade de Vasconcelos voltar a ocupar algum cargo estratégico no governo quando retornar do exterior. Além de prestigiado junto à presidente, a ministra Gleisi Hoffmann tende a deixar a pasta nos próximos meses para disputar o governo do Paraná nas eleições de 2014. Isso pode acontecer em dezembro, segundo a expectativa de autoridades do Palácio do Planalto.
Para integrantes do governo, essas mudanças são reflexo do esgotamento de um modelo de gestão da presidente, que até agora preferiu despachar diretamente com os secretários-executivos a discutir as políticas com seus respectivos ministros. (Colaborou Sergio Leo, de Brasília).
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