Fonte: SOS Concurseiro
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SOS Concurseiro: A Polícia Federal tem papel central no desenvolvimento do país. A instituição é peça fundamental em temas como a proteção de fronteiras, dinamização de aeroportos e o sucesso de eventos internacionais que serão realizados no país. No entanto, existe defasagem no número de pessoal – apresentada, inclusive, pelo SOS CONCURSEIRO anteriormente. Os números de julho de 2011 se mantêm?
RENATO DESLANDES: Infelizmente, a defasagem de policiais e servidores administrativos só aumenta. Nos últimos anos, mais de 200 policiais federais deixam a Polícia Federal anualmente, ao migrar para carreiras mais valorizadas pelo governo federal. Para se ter uma ideia, desde 2003 o Tribunal de Contas da União (TCU) alerta a gestão da Polícia Federal sobre irregularidades na terceirização de funções para ocupar os espaços que deveriam ser preenchidos por concursos públicos.
SOS Concurseiro: Por que isso acontece?
RENATO DESLANDES: O motivo central é a falta de uma boa gestão na Polícia Federal. Infelizmente, existe uma cultura organizacional dentro da PF que impede os servidores não-delegados de exercerem cargos na alta gestão. Como consequência, servidores formados em Administração, Engenharia ou com experiência de gestão em multinacionais são impedidos de participar da gestão do órgão. Como consequência, os gestores não se preocupam com a desvalorização dos subsídios dos policiais federais, agentes, escrivães e papiloscopistas em relação às demais carreiras típicas de Estado. E hoje, temos um cenário que desvalorizou bastante esses cargos em relação às demais carreiras. Como reflexo, atualmente se constata que muitos policiais recém-empossados rapidamente deixam o órgão e migram para outras carreiras públicas com melhores salários, sem lotação em regiões inóspitas, com péssima infraestrutura, e sem os problemas de gestão ou discriminação funcional dentro do órgão.
SOS Concurseiro: E como esse problema poderia ser solucionado?
RENATO DESLANDES: Não se resolve essa situação em curto prazo. Mas é necessário começar, pois a Polícia Federal é um patrimônio do povo brasileiro e os desafios profissionais são uma experiência de vida única, apesar do descaso atual do Governo Federal. Para solucionar, existem duas diretrizes básicas: corrigir a distorção remuneratória dos cargos de agente, escrivão e papiloscopista da PF em relação às demais carreiras públicas de nível superior, e instituir na gestão do órgão uma política de recursos humanos que privilegie a experiência, a formação científica e a competência, sem criar monopólios corporativistas.
SOS Concurseiro: Qual é a situação hoje de aposentadorias e exonerações?
RENATO DESLANDES: Se somarmos as aposentadorias, mais de 200 anuais, e os servidores que migram para outras carreiras – um índice que só aumenta –, de imediato a conclusão é que este número está muito subestimado. Até porque desses 4.174 novos profissionais, uma parcela significativa de aprovados nem toma posse, ou então deixa o órgão no primeiro ano de exercício, procurando melhores salários e condições de trabalho mais dignas.
SOS Concurseiro: Destes, 592 são para postos do Plano Especial da Polícia Federal (PEC)?
RENATO DESLANDES: Se o número de policiais é defasado, em relação ao PEC a situação é mais absurda ainda. Posso lhe dizer que os servidores administrativos são discriminados dentro da PF pela atual política absurda de RH. São os servidores mais vitimados pelo assédio moral, que também atinge os policiais. Para se ter uma ideia, em 25 de abril último, foi aprovada uma audiência pública para debater no Congresso Nacional o assédio moral da Polícia Federal e o índice alarmante de policiais com problemas de caráter psicológico.
SOS Concurseiro: A Academia da PF tem capacidade de formar 1,1 mil policiais por ano. Então existe também o gargalo na capacitação dos policiais federais?
RENATO DESLANDES: Com planejamento e gestores competentes, é possível contornar esse gargalo administrativo historicamente citado pela PF para justificar sua incapacidade de resolver o problema de defasagem de servidores. Existem outras escolas de governo em Brasília, e garanto que, existindo orçamento, planejamento e boa gestão, é possível sim capacitar mais policiais federais para suprir as lacunas hoje existentes na PF.
SOS Concurseiro: Existem alguns cargos que estejam com menos risco de apagão?
RENATO DESLANDES – Os cargos de delegado e perito não sofrem com a evasão de servidores para carreiras mais valorizadas, pois já são os cargos do executivo com maiores subsídios. É uma situação mais tranquila, pois só é necessário compensar as aposentadorias.
SOS Concurseiro: Há dois anos, a expectativa era que 250 servidores deixaram seus postos anualmente, isto ainda se confirma?
RENATO DESLANDES: Esse dado está muito, mas muito abaixo do número real, pois só considera as aposentadorias. Nos próximos dias vamos divulgar o número total de evasões e aposentadorias, por cargo na PF. Por enquanto, estimamos que sejam 250 servidores se aposentando e 200 a 250 servidores deixando o órgão para outras carreiras, por ano.
SOS Concurseiro: As projeções de que, até 2016, 1.100 estarão aptos a parar de trabalhar reflete a realidade?
RENATO DESLANDES: É uma visão parcial sem análise de todo o contexto. Rezo para que algum representante da PF leia essa matéria. O novo policial é o servidor mais “apto” e propenso a deixar o órgão para outra carreira mais valorizada, pois prestou um concurso difícil há pouco tempo. Se existe uma evasão crescente de profissionais dos cargos de agente, escrivão e papiloscopista, estimada em 250 policiais por ano, é fácil a conclusão: desses 1.100 policiais “aptos” a trabalhar, vão permanecer na Polícia Federal depois de três anos provavelmente entre 600 e 700 policiais. Infelizmente, se nada for feito pelo governo ou pela própria PF, eu mudaria a assertiva para: ‘Até 2016, 1.100 vão parar de trabalhar, por aposentadoria ou por deixarem o órgão’.
SOS Concurseiro: A área de segurança pública atrai muitos interessados e hoje, a PF tem 11,5 mil policiais e 2.650 profissionais da área administrativa. Como é a sua experiência nacarreira?
RENATO DESLANDES: A carreira policial federal é uma experiência de vida incrível. Nesses últimos dez anos, aprendi muito. Assisti meu subsídio, antes equiparado às demais carreiras típicas de Estado, reduzir-se a metade dos demais cargos do Executivo Federal. Colegas morreram, tantos outros adoeceram por serem perseguidos ou assediados, mas não me arrependo de ser um policial federal. Junto a milhares de colegas, fizemos uma escolha de tentar mudar esse país, combater a corrupção, e acho que ainda existe esperança que o Governo trate com mais carinho aqueles servidores que arriscam suas vidas de norte ao sul desse país.
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