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fev 29

Doenças psicoemocionais dentro da Polícia Federal

  • 29 de fevereiro de 2012
  • Notícias

Por Katy Fabruzzi / SINDPOLF/SP

Nos 10 andares da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal de São Paulo circulam servidores, terceirizados e outros cidadãos em busca de soluções de problemas. Se observarmos a fundo, veremos todos os tipos de pessoas. Muitas nos cumprimentam com sorrisos largos, outras sequer reconhecem colegas que passam por elas, pois estão voltadas para o seu mundo pessoal.

Essa é a relação moderna de trabalho que, apesar de facilitar a vida com rapidez e tecnologia, também proporcionou pressões contínuas, tensões e aumentou o número de cobranças e assédios morais. Alguns funcionários que chegam a seus locais de trabalho deixaram em casa, dívidas pendentes, filhos doentes, discussões familiares ou situações mal resolvidas. O mundo moderno não nos ensinou a adaptar tudo isso e muito menos ao trabalho policial.

Só as dificuldades pessoais não bastam, a Polícia Federal em todo o país enfrenta também os seus próprios problemas. Falta de estrutura, de pessoal, escalas pesadas de horários, sobreavisos e tensões, que em alguns servidores são pequenos gatilhos para o desenvolvimento de doenças psicoemocionais: neuroses, estresses, distúrbios psíquicos, apneia, alcoolismo, etc.

Essa série de reportagens pretende conhecer um pouco desta realidade na Polícia Federal, e tentar, através de um amplo debate, orientar e buscar soluções. Participe enviando seu depoimento e opinião para comunicacao@sindpofsp.org.br  ou deixe comentário no final desta matéria.

Analisando as diferentes formas de trabalho e sobrecargas na PF

Escrivães, Delegados e Peritos lidam com duas situações de sobrecargas: número volumoso de inquéritos (quantidade) ou inquéritos de grandes volumes (menos inquéritos, mas com muito mais páginas anexas), prazos e situações que precisam de resoluções, além do número pequeno no quadro de pessoal.

Agentes e Papiloscopistas encontram problemas com a falta de estrutura de trabalho, escoltas de presos e as escalas variáveis. Há situações em que, na ausência de Agentes, os Papiloscopistas são os substitutos.

Para os Servidores do Plano Especial de Cargos (PEC) a insegurança é muito grande.  Sem o devido reconhecimento profissional, os servidores do PEC estão cada vez mais reduzidos, mas com grande demanda de trabalho. Dividem o espaço com terceirizados que, por sua vez, não têm preparo e há uma grande rotatividade. No dia 29 de abril completam 27 anos que lutam por definições de suas estruturações de carreira.

De forma geral, sobreavisos; nível extremo de responsabilidade com o trabalho e com a própria vida; carga horária; ausência de bons salários (principalmente Administrativos); escalas variáveis e jornadas contínuas que duram mais de oito horas, cedo ou tarde, um ou outro servidor precisará de uma atenção à saúde psicoemocional.

“Fiquei muito de sobreaviso. Apesar de você estar à disposição do DPF, privado do seu momento de lazer, não é considerado como um dia de trabalho com remuneração e não temos direito à folga respectiva. Ficamos em alerta o tempo todo e não podemos fazer nada. Como sair e tomar um chopp com amigos se pode ser chamados a qualquer instante?”, comentou um Agente.

“Para quem tem alguma predisposição isso vai funcionar como gatilho. São situações de trabalho que te colocam em privação de sono, ou então mudanças freqüentes do ciclo biológico do sono/vigília. Vou dormir e depois ficar acordado. Acordar muito cedo e saber que estou dormindo pouco. Isso não só traz uma tensão natural, mas esse descontrole do ritmo do sono/vigília predispõe aflorar os quadros das doenças psicoemocionais”, explicou Roberto Tonanni de Campos Mello, médico psiquiatra desde 1980 com atuação no DPF há sete anos.

O médico reforça que as privações de sono também são comuns nas faculdades de Medicina quando se entra no ritmo de internato e plantões. “Nas situações em que você tem que mudar de turno deveria ser pelo tempo suficiente para que o organismo se habitue ao novo ritmo, sem ser submetido a uma nova mudança, logo em seguida.”

E o lado motivador?  “Os administrativos ganham pouco, são sempre os mesmos que viajam. Todo mundo gostaria de viajar, sair da rotina. Queria ir até o Rio e enfrentar o medo que tenho de ir pra lá”, conta o servidor do PEC, que teve sua licença-saúde renovada por mais um tempo. Não citaremos o nome do funcionário e o nomearemos como “Alfa”.

Um estudo realizado por pesquisadores britânicos, publicado na Plos One, apontou que indivíduos que trabalham, pelo menos 11 horas por dia, além de sofrerem mais cansaço, também apresentam um risco duas vezes maior de depressão grave comparados aos que trabalham sete horas diárias.

A mesma pesquisa revelou que homens com empregos desafiadores e bons salários apresentaram níveis de depressão bem menores em relação a outros grupos, mesmo passando mais de 8 horas na empresa. Uma dedução óbvia. Segundo os pesquisadores, gostar do que se faz e ter o apoio de subordinados para realizar o trabalho tem efeito protetor para eles.

Nossa primeira questão para reflexão:

Ao perceber problemas na formação de escalas; na execução de trabalhos e na falta de estímulos, não seria importante que um chefe reorganizasse seu setor tornando o ambiente mais interessante para o trabalho?

Nas próximas edições:

– O Gatilho

-Licenças Médicas

–  Assédio Moral

– Artigos de Especialistas

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