Fonte: O Globo
Através de carta lida pelo sucessor, Ricardo Teixeira renuncia à presidência da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014. José Maria Marin assume os dois cargos
Ao meio-dia e dez de ontem, dia 12 de março de 2012, José Maria Marin começava a ler a carta em que Ricardo Teixeira, agora definitivamente o ex-presidente da CBF, anunciava o fim de sua trajetória de 23 anos no comando da entidade. Diante de presidentes de federações, dirigentes e jornalistas, o novo comandante do futebol brasileiro era o porta-voz da despedida de Teixeira. “Fiz nesses anos o que estava ao meu alcance, sacrificando a saúde e o convívio familiar. Fui criticado nas derrotas e subvalorizado nas vitórias”, dizia o texto da carta de renúncia.
Teixeira deixou não apenas a presidência da CBF, mas também o comando do Comitê Organizador Local (COL) da Copa de 2014, cargo que José Maria Marin também está assumindo – formado ainda por Ronaldo e Bebeto.
A saída de Ricardo Teixeira a pouco mais de dois anos de o Brasil voltar a sediar uma Copa do Mundo, deixa no ar um questionamento: o que levou um homem que conviveu com denúncias e acusações durante boa parte dos 23 anos em que ficou à frente da CBF a desistir do cargo justamente neste momento? Ricardo Teixeira, aliás, foi o principal condutor da candidatura brasileira a receber o Mundial. A explicação passa, primordialmente, pela pressão familiar e, em segundo lugar, pelas saúde debilitada, além das últimas denúncias.
O ponto culminante para a renúncia foi a exposição até da filha mais nova de Teixeira, que teria ouvido comentários constrangedores sobre o pai no colégio em que estudava no Rio.
Sucessão articulada
Ricardo Teixeira, de 64 anos, é casado com a administradora Ana Carolina Wigand, 30 anos mais nova. Pai de três filhos de seu casamento com Lúcia Havelange – filha do presidente de honra da Fifa, João Havelange -, Teixeira tem uma filha com Ana Carolina. Antônia, de 11 anos. O ex-presidente da CBF também convivia com problemas de saúde, agravados pela pressão crescente sobre ele.
O dirigente, que está nos Estados Unidos, vinha claramente preparando de forma metódica a sua retirada da CBF há algum tempo. No entanto, a forma como a renúncia foi anunciada, numa entrevista coletiva convocada por José Maria Marin, causou boa dose de surpresa até em alguns dos seus correligonários.
Ricardo Teixeira comprou três apartamentos no Rio de Janeiro para os filhos recentemente. A filha mais nova já está estudando em Miami, perto de Boca Raton, onde o dirigente tem uma casa. Para garantir o pagamento de uma gratificação e do FGTS, Teixeira demitiu o tio Marco Antônio Teixeira, que era secretário-geral da CBF e de quem virou desafeto. Marco Antônio estaria articulando com alguns presidentes de federações a sucessão de Teixeira. Ele também se desfez de bens que tinha no estado do Rio: vendeu empresas, uma fazenda, em Piraí, e um apartamento.
Politicamente, teve o cuidado de articular, com a necessária antecedência, a sucessão nos dois postos que ocupava: na CBF e no COL. Na Confederação, além de ter um aliado político como sucessor – o estatuto determinava que o mais velho vice-presidente assumisse-, deixou a seleção brasileira entregue ao ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez, com quem tem ótimo relacionamento.
No Comitê Organizador Local, colocou figuras renomadas e também leais a ele no Conselho de Administração: Bebeto e Ronaldo. Os dois serviriam para diminuir as críticas. O Conselho é composto por três pessoas e, com a saída de Teixeira, Marin passa a ser o terceiro integrante do grupo e presidente.
Composto como empresa, o COL, financiado integralmente pela Fifa, terá em Marin um de seus novos sócios, no lugar de Teixeira. A CBF, para manter o controle, tem 99,99% e Marin passa a ter 0,01%.






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