Fonte: Correio Braziliense
Ex-sargento da Aeronáutica, Dadá transitava pela legalidade e pelo submundo com a mesma desenvoltura e habilidade para cooptar informantes, o que garantiu a ele papel de destaque no esquema de Cachoeira
Num início de noite, um ano antes de a Operação Monte Carlo amedrontar meio mundo político, Dadá recebeu uma missão de Lenine Araújo de Souza, o número dois da organização criminosa chefiada por Carlinhos Cachoeira. Àquela altura, Lenine já tinha em mãos um escopo do organograma da quadrilha que ajudava a comandar com mãos de ferro. Um dossiê produzido por algum órgão de segurança pública, que investigava a jogatina de Cachoeira, detalhava a composição do grupo. Lenine desconfiou da veracidade do documento, arranjado por um policial rodoviário federal que também foi denunciado na Monte Carlo. Decidiu, então, ligar para Dadá: “Chicão, quero que você dê um pulo aqui amanhã”. Dadá, ou Chicão, deveria dar o veredicto sobre o dossiê. “Achei fajuta demais da conta”, disse Lenine.
Cachoeira e seus subordinados já temiam uma investigação mais graúda. Foi assim que Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, ganhou ainda mais importância no grupo do bicheiro. O araponga aparece em grande parte dos diálogos telefônicos degravados pela Polícia Federal (PF) para a Operação Monte Carlo. Arregimentava policiais militares, civis e federais para o esquema. Impulsionava os sites de aposta eletrônica montados por Cachoeira. Participava ativamente das frentes de fechamento de bingos de grupos rivais do bicheiro. Mas foi a espionagem — sua especialidade — e os contatos políticos em Brasília que deram posição de destaque a Dadá na quadrilha.
O araponga transita com facilidade por órgãos do Governo do Distrito Federal há pelo menos 15 anos. Na semana passada, foi o protagonista da crise política instalada pela Operação Monte Carlo em razão dos grampos telefônicos que mostram sua participação decisiva no meio de campo entre Cachoeira e auxiliares do governador Agnelo Queiroz (PT). Dadá, até a sua prisão, em 29 de fevereiro, foi decisivo para o êxito dos contratos da Delta Construções com diferentes governos. Cabia a ele discutir nomeações, fazer o lobby por indicações e blindar de investigações a empreiteira — que teve um diretor, sócio de Cachoeira, denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) — e os negócios da jogatina.
Um destino certo de Dadá na busca por informações era o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O promotor Wilton Queiroz de Lima, do Núcleo de Inteligência, o recebia com frequência. Wilton sabia que Dadá era bem informado. Mais do que isso: tinha um poder de ingerência no GDF há anos e, por conhecer a estrutura do governo por dentro, seria naturalmente um colaborador. O araponga fez um jogo duplo. Levava informações aos promotores, mas buscava detalhes decisivos para o êxito dos negócios de Cachoeira. Wilton e o segundo promotor citado, Libânio Alves Rodrigues, negam qualquer tipo de vazamento de informações ao araponga.
Libânio diz já ter sido grampeado — ilegalmente — por Dadá. Há sete anos, durante as investigações das fraudes no Instituto Candango de Solidariedade, o araponga fez um relato ao promotor que evidencia a extensão de sua espionagem: “Ele me disse que quatro promotores de Justiça, dois procuradores da República e dois procuradores do Trabalho estavam sendo grampeados de forma ilegal. A base dos grampos, conforme ele me contou, foi montada no Palácio do Buriti”.
Abin e PF
Uma investigação sobre irregularidades no DFTrans, por parte do MPDFT, só foi possível em função da proximidade umbilical de Dadá a um dos investigados. “Nas conversas, ele se coloca como um arauto da moralidade”, afirma o promotor Wilton Queiroz. “Dadá dizia que, quando se aposentasse, iria para o STJ (Superior Tribunal de Justiça)”, completa.
O araponga de Cachoeira já atuou formalmente na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e na Polícia Federal, como prestador de serviços na Operação Satiagraha, chefiada pelo então delegado Protógenes Queiroz. Como deputado pelo PCdoB, Protógenes continuou próximo a Dadá. O informante é tido como peça-chave na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPI) a ser instalada no Congresso. Sargento da reserva da Aeronáutica, esteve lotado no 6º Comando Aéreo Regional (Comar), na Base Aérea de Brasília. Ele voltou para o 6º Comar, mas na condição de preso na Operação Monte Carlo. A expectativa, agora, é pelo arsenal de Dadá.
Contatos
O araponga tinha intimidade com funcionários da PF — neste caso, os servidores estavam ligados a Cachoeira e um deles chegou a ser denunciado pelo MPF em razão do envolvimento. Dadá fez contatos recorrentes com um agente da PF em Goiânia. De um auxiliar administrativo da PF em Brasília, Anderson Aguiar Drumond, recebeu informações sobre operações policiais, conforme as investigações. Policiais federais chegaram a fotografar o auxiliar e o araponga juntos. Dadá era um informante com informantes. Lenine — o mesmo que pediu uma checagem do rascunho da própria organização criminosa — autorizou pagamentos ao “amigo
do Chico”.
Os contatos
As principais ligações do jogo duplo feito por Dadá
Quadrilha
Carlinhos Cachoeira
» Chefe da organização, tinha no espião um contato entre personagens oficiais e do submundo
Lenine Araújo de Souza
» Homem de confiança de Cachoeira, era quem tratava demandas do grupo diretamente com Dadá.
MPDFT
Wilton Queiroz de Lima
» Dadá buscava no promotor do MPDFT informações sobre as operações da instituição
Libânio Rodrigues
» Também promotor do MPDFT, era outro procurado por Dadá para obter informações
GDF
Marcello de Oliveira Lopes (Marcelão)
» Dadá utilizava o ex-funcionário da Casa Militar do DF e assessor de Cláudio Monteiro para chegar ao GDF.
João Carlos Feitosa Zunga
» Ex-funcionário da Secretaria de Esportes, teria dito a Dadá que o “01” queria falar com Cachoeira






Comments are closed.