Presidente usa capital político também para tomar medidas ousadas, como mudança na poupança ou divulgação de salários
Luiza Damé e Cristiane Jungblut – O Globo – 27/05/2012
A avaliação entre parlamentares, especialistas e até mesmo integrantes do governo é que a presidente Dilma Rousseff soube aproveitar um vácuo existente hoje no debate político, provocado principalmente pela ação limitada da oposição, e construiu uma imagem de firmeza e eficiência que está lhe rendendo índices seguros de popularidade. É esse capital que ela usa para firmar seu discurso ofensivo, com práticas às vezes agressivas.
No Congresso, os políticos comentam, quase que resignados, que “nada desgasta a presidente”, mesmo quando ela toma medidas que poderiam ser um desastre político no passado, como a recente mudança nas regras da poupança. Ou enfrentando lobbies pesados, inclusive do funcionalismo, como ao determinar a divulgação dos nomes e salários.
A presidente conseguiu construir uma imagem de ética e de independência frente ao próprio PT, inclusive, ficando imune a desgastes do partido. Por isso, segundo especialistas, toma decisões praticamente sozinha ao demitir ministros ou outros integrantes do governo.
Para o historiador Marco Antônio Villa, professor da Universidade Federal de São Carlos, a presidente ocupou o espaço vazio que há no debate político e tem repetido mantras, como a redução de juros. Mas não define uma linha condutora do governo: ataca os juros, mas não apresenta uma política industrial, por exemplo. A oposição, disse ele, também não ocupa esse espaço.
– Há um vazio no debate político nacional. Nos últimos dois meses, o que se discutiu? CPI do Cachoeira? Não que a CPI não seja importante, mas o Congresso não se colocou, a oposição não se colocou. Então, entra a presidente com suas declarações, que satisfazem A ou B, mas falta uma linha condutora. Ela passa uma sintonia com a vontade do cidadão, que não aguenta mais as taxas de juros ou que quer transparência na administração pública – afirma Villa.
O historiador avalia que o capital de Dilma poderá se manter ou diminuir a depender da situação econômica. Por enquanto, o Brasil tem conseguido se proteger da crise internacional, mas a economia não está crescendo como a presidente esperava. Dilma tem horror, dizem seus interlocutores, a ficar como a presidente do “Pibinho”.
– Tudo pode piorar, se a situação da economia piorar – diz Villa.
Mas, se para fora o discurso direto e altivo faz sucesso, internamente há insatisfações não apenas entre os políticos com interesses contrariados, mas entre os que esperavam mais da gestão administrativa – que seria o forte do governo Dilma.
Como tudo fica centralizado nas mãos da presidente, os atrasos em obras e projetos e as mudanças de rumo sobre decisões já tomadas são motivos de conflitos constantes no governo. O estilo centralizador tem emperrado decisões dentro do governo e, principalmente, no Parlamento, reconhecem políticos e técnicos do governo.
– É verdade que ela acompanha tudo, tudo – afirma um auxiliar palaciano.






Comments are closed.