Como era esperado, o deputado Wilson Lima — apoiado por Arruda — é eleito presidente da Câmara Legislativa
Lilian Tahan e Luísa Medeiros
Tudo saiu conforme o combinado entre o governador José Roberto Arruda (sem partido) e sua base aliada na Câmara Legislativa. Por 15 votos a sete, o distrital Wilson Lima (PR) foi eleito na tarde de ontem presidente da Casa. O placar a favor do candidato apoiado pelo Buritinga reflete a retomada da influência política de Arruda sobre o Legislativo. O consenso em torno de Wilson Lima (leia perfil) frustrou os planos de dissidência de Eliana Pedrosa, que tentou até o fim de semana reunir aliados para sua investida.
Sem conseguir se viabilizar, Eliana expressou seu estado de espírito por meio do voto. Absteve-se. O colega Alírio Neto (PPS), um dos poucos que havia confirmado suporte à candidatura de Eliana, também protestou. Optou pelo candidato do PT, Cabo Patrício, que teve ainda a preferência da bancada e de José Antônio Reguffe (PDT). “A Casa tinha que ter uma linha mais independente, o que não vai ocorrer com a eleição de Wilson Lima”, reagriu o neo-oposicionista, que adotou uma linha mais dura depois de ser pressionado pelo partido a romper com o GDF. O sétimo voto de Patrício foi de Jaqueline Roriz (PMN): “Uma forma de demonstrar minha posição, ou melhor, minha oposição”, disse.
Investigados
Dos 15 entusiastas da candidatura de Wilson Lima, sete — Leonardo Prudente (sem partido), Eurides Brito (PMDB), Benício Tavares (PMDB), Roney Nemer (PMDB), Rogério Ulysses (PSB), Aylton Gomes (PR) e Benedito Domingos (PP) — são citados na Operação Caixa de Pandora, que apura um suposto esquema de corrupção envolvendo deputados e a cúpula do GDF. Dos oito titulares acusados, apenas Júnior Brunelli (PP) não compareceu à votação e justificou a ausência com um atestado médico.
Uma das primeiras missões de Wilson Lima como presidente da Câmara será a condução do recurso que a Mesa Diretora deverá apresentar à Justiça na tentativa de rever a liminar afastando o distritais investigados de qualquer decisão acerca dos processos de impeachment contra o governador Arruda.
UM DEPÕE NA POLÍCIA FEDERAL
Três pessoas compareceram ontem à Superintendência da Polícia Federal, no Setor Policial Sul, para depor sobre as denúncias reveladas pelo ex-secretário de Relações Institucionais do GDF Durval Barbosa. Mas apenas o diretor-financeiro da empresa de informática Vertax, Maurício Cauville, respondeu às perguntas feitas pelo delegado responsável pela Operação Caixa de Pandora, Alfredo Junqueira. O depoimento ocorre durante a manhã e durou cerca de uma hora e meia. A Vertax foi citada por Durval na Justiça como uma das empresas que supostamente pagou propina à base aliada do governo. No período da tarde, o servidor da Secretaria de Educação Massaya Kondo e um dos donos da empresa de informática Linknet, Gilberto Lucena, compareceram ao prédio da PF, mas usaram o direito de permanecerem calados. Lucena conseguiu ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) habeas corpus ratificando o direito dele ficar em silêncio durante o relato. Perfil
Um urso que sabe se disfarçar
O mais novo presidente da Câmara Legislativa tem jeitão de ursinho de pelúcia e comportamento de peixe-folha. Wilson Lima (PR) atende pelos dois apelidos. “É que os colegas me acham fofinho”, especula o deputado. E qual a explicação para peixe-folha? “É pequeno, mas sabe nadar entre os grandões sem ser engolido porque se disfarça toda vez que o perigo aparece”. Foi com a candura de um ursinho e a esperteza de peixe que Wilson Lima conquistou seu ingresso para o cargo mais importante do Poder Legislativo no DF. Tornou-se o predileto do Buritinga, que expressou sua preferência por meio da base aliada ao governo na Casa.
Wilson Lima atingiu o auge dentro da estrutura legislativa no último ano dos três mandatos como deputado distrital. Antes de entrar para a vida pública, ele foi comerciante. Era dono de supermercados no Gama (onde mora desde 1968), no Jardim Ingá e em Valparaíso. Vem daí parte dos votos que o tornaram deputado. A outra base do político é a militância religiosa. Lima é da Pastoral da Família da Igreja Católica, primeira meta de vida do distrital, que entrou em dois seminários, mas desistiu da batina antes de se ordenar. Optou pelo casamento, mantido por 31 anos.
Justamente pela veia religiosa, Lima costuma atribuir os desafios da vida a um chamado divino. “A presidência da Câmara é uma missão de Deus”, confia o parlamentar, eleito com as bênçãos terrenas do governador José Roberto Arruda (sem partido). Em oito anos na Câmara, o distrital aprovou 39 leis de sua autoria — entre as mais importantes, estão a do parto solidário (permite à grávida ter um acompanhante na hora do parto), da fila (obriga bancos a fornecer assento para os clientes) e do silêncio (estabelece regras para o uso de som no comércio).
Conhecido por falar pouco e baixo, Lima não é tão comedido quando se trata de dinheiro. Está sempre entre os mais mais da lista de gastadores. Nos últimos três anos, foi o segundo que mais usou os recursos da verba indenizatória. Em fevereiro do ano passado, reportagem do Correio mostrou que o distrital utilizava parte de sua estrutura de gabinete para tocar um projeto social no Gama.
Wilson Lima chegou ao todo da carreira política sem grandes pretensões, um dos motivos pelos quais foi o escolhido. Alguns colegas o chamavam presidente na semana passada. Mas houve quem adicionasse à bajulação uma pitada de ironia, tratando-o por governador, alusão à situação instável por que passam Arruda e seu vice, Paulo Octávio, desde o início da Operação Caixa de Pandora. Pela legislação, na ausência da dupla, o presidente da Câmara assume o GDF. “Ele não assusta Arruda. Fará tudo da forma como for orientado”, avalia um dos distritais contrários à eleição de ontem.
Se numa eventualidade Wilson Lima pular do Legislativo para o Executivo terá pelo menos um parâmetro de comparação com o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como Lula, Lima está em sentido ascendente na política sem ter frequentado uma universidade. “E veja o sucesso que o homem está fazendo. Se ele pode, eu também posso”, acredita. O distrital tem um problema de dicção que reflete um dos momentos mais dramáticos de sua vida. Em 2005, teve um acidente vascular cerebral (AVC), que lhe deixou sequelas. (LT)






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