No quarto andar do Ministério da Justiça, uma mesa de quatro metros de comprimento abriga dezenas de documentos, todos aguardando a assinatura do ministro Tarso Genro. Em plena tarde chuvosa de Brasília, o acúmulo de serviço era o sinal mais visível de que o titular da pasta está de partida. Hoje, às 10h, Tarso entrega o cargo em definitivo para o até então secretário executivo, Luiz Paulo Barreto. Até a saída para disputar o Piratini, foram três meses de negociação com o presidente Lula.
Ao longo dos dois mandatos, Tarso atuou em quatro ministérios, com uma pausa ainda para assumir a presidência do PT em plena crise do mensalão. Agora, porém, quer distância de Brasília para mergulhar na campanha. A seguir, uma síntese da entrevista a Zero Hora.
Zero Hora – O senhor passou os últimos sete anos no governo. Em que isso pode ajudar sua campanha?
Tarso Genro – Posso destacar em cada uma das pastas que passei alguma coisa importante. Na Educação, o ProUni. Na coordenação política, fui destacado para organizar a coalizão com o PMDB e a agora para a candidatura de Dilma. Na Justiça, o combate intenso à corrupção.
ZH – Por que houve tantas críticas à Polícia Federal?
Tarso – A principal crítica que a PF recebeu foi a espetacularização de suas ações, o que ocorreu no primeiro mandato. Isso se deu quando a PF passou a investigar não somente o PT, mas também setores das elites. Enquanto as investigações eram principalmente contra o PT, havia uma vibração da imprensa. Isso é natural porque o PT teve origens em uma visão moralizadora, então as contradições são mais duras, e a imprensa presta mais atenção.
ZH – Citados em escândalos no Estado creditam as investigações a supostas intenções do senhor em desgastar adversários. Como o senhor reage?
Tarso – Isso ocorre em todos os Estados e em todos os partidos. Sempre que uma pessoa se vê investigada ou indiciada, procura como defesa dizer que aquilo é perseguição política. O que me chama atenção é que ninguém apresentou qualquer fato objetivo.
ZH – A presidência do PT na época do mensalão foi um fardo?
Tarso – Foi um grande aprendizado e um dos momentos mais difíceis da minha vida política. Saí de um ministério importante como o da Educação para ajudar um partido em crise profunda. Tive um grande obstáculo: a maioria achava que a linha política que eu estava adotando era muito prejudicial aos seus interesses de manter a hegemonia.
ZH – Como o senhor vê o retorno de José Dirceu e José Genoino ao diretório do PT?
Tarso – Ninguém tinha a expectativa de eliminar a participação desses companheiros da vida do PT. Eles têm o direito de voltar e isso não me surpreende. Eles têm de ser bem recebidos e respeitados dentro do partido. Mas isso não me obriga a ter as mesmas opiniões que eles.
ZH – O senhor se sente frustrado por não ser candidato à Presidência?
Tarso – Nunca levei muito a sério essa possibilidade. Por três motivos fundamentais: nunca fui maioria dentro do PT, enfrento uma resistência muito forte do grupo paulista e, sobretudo, porque, para eu ser candidato, Lula teria que querer. O presidente não escolheria uma pessoa que causaria confronto interno no PT. Qualquer brasileiro gostaria de ser presidente de seu país, mas tem de ser realista para ver se essa possibilidade existe.
ZH – No que o seu governo se diferenciaria do de Olívio Dutra?
Tarso – É outra época. Nesse período, temos a experiência do governo Lula, que foi um ensinamento muito grande para nós. É uma pacificação pelo diálogo.
ZH – Em 2009, o senhor fez pelo menos 20 viagens oficiais ao Estado, o que é classificado como campanha antecipada por seus adversários. Como senhor explica essas viagens?
Tarso – Eu pergunto se a governadora Yeda Crusius em viagens pelo Interior não está fazendo campanha também. Usei o direito que tenho de me deslocar até o Estado, fazendo políticas públicas.
ZH – O senhor é favorável a uma campanha plebiscitária?
Tarso – Isso vai se impor. E a prova está nestas declarações de Fernando Henrique, a pessoa mais ilustre do PSDB. A comparação não é negativa. Os oito anos de governo tucano tiveram suas virtudes, mas acreditamos que as nossas virtudes são muito maiores do que as deles.
ZH – O senhor acha que a corrupção vai pautar a campanha?
Tarso – Se entrar, será uma coisa lateral. O debate da corrupção gera agressividades que tiram o caráter politizante da eleição. Não é um tema para campanha eleitoral.
ZH – O senhor acha isso porque o PT também não tem um telhado de vidro?
Tarso – Eu acho como conceito. Posso fazer esse debate com a maior naturalidade, até porque nestes três anos de ministério combati a corrupção em todas as esferas. E jamais sofri acusações sérias nesta questão.






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