No começo do ano, um grupo de delegados se reuniu para dar sugestões e justificar a falta de produtividade nas delegacias. Apesar de serem produzidas montanhas de papeis, policiais trabalharem incansavelmente para sustentar a máquina burocrática criada no departamento, os resultados eram ínfimos.
A justificativa foi simples, a produção era baixa porque eram constantemente requisitados agentes para participação de operações, escoltas de presos e segurança de dignitários, o que prejudicava o bom andamento dos trabalhos nas delegacias. Outro vilão foi o serviço de entrega de intimações, que compunham boa parte das ordens de missões emitidas, ocupando tempo que serviria para realizações de investigações.
Claro que em uma reunião de delegados, o problema da falta de produtividade recaiu sobre a atuação dos agentes. Curiosamente, nenhum agente participou da reunião para sugerir soluções de como melhor realizar seu próprio trabalho, mas os delegados se incumbiram disso, mesmo que muitos deles jamais tivessem participado de investigações e levantamentos em campo.
Como na reunião só estavam delegados, nada foi ventilado sobre a emissão de intimações desnecessárias, sobre erros estratégicos na condução de inquéritos, sobre a emissão de ordens de missão mais abrangentes, que possibilitassem aos agentes em campo tomar decisões para resolver lacunas, nem a falta de informações sobre o caso repassadas aos policiais. Problemas que qualquer agente experiente levantaria se houvesse algum na reunião.
Ao mesmo tempo, houve uma louvável iniciativa de delegar algumas chefias de núcleos de operações aos policiais do cargo de agente. Profissionais igualmente de nível superior e especializados na área operacional. Tal ato demonstrou coragem contra velhos vícios na instituição, e recebeu duras críticas das associações de classe de delegados por perda de espaço e posições de chefia.
No entanto, com essa decisão, transferiram boa parte dos agentes dos NOs para o SPO, para que estes cuidassem daqueles trabalhos que nenhum policial se sente realizado ou desafiado, que vão desde a escolta de presos, intimações até apoio ao núcleo de segurança de dignitários.
Em várias delegacias coube ao delegado chefe do NO que estava deixando o cargo, a escolha dos agentes que iriam para tal setor, que na maioria dos casos adotou critério pessoal, considerando muito mais o grau de submissão do que capacidade profissional. Muitos desses delegados saíram dos cargos contrariados por estarem sendo substituídos por agentes e, curiosamente, foram eles que escolheram quem iria ser chefiado pelos novos comandantes. Os novos chefes de NO assumiram os setores totalmente desfalcados, com um número de policiais muito inferior ao que era quando chefiados por delegados.
Dezenas de policiais foram tirados de seus setores e lotados no SPO, em sua grande maioria policiais experientes, sem punições em prontuários e de notória competência técnica. Ao SPO foi dada a competência de realizar aqueles trabalhos que qualquer policial se sente subutilizado fazendo. O que antes era dividido entre toda superintendência, aquelas tarefas maçantes e desestimulantes, agora está a cargo de alguns “Eleitos”. Para tanto se desenvolveu a filosofia de que qualquer trabalho emergencial e de baixa relevância é delegado aos agentes do SPO. Esses agentes em seus novos setores encontraram uma nova rotina: ficam horas em uma garagem no fórum de Guarulhos tomando conta de presos até que recebam ordens para subir para sala de audiência; em feitos que muitas vezes terminam tarde da noite; são acionados para tomar conta de presos defecando drogas em hospitais; têm que constantemente se indispor em presídios para retirada e entrega de detentos; são acionados para todas as operações que iniciam de madrugada e incumbidos de realizar todas as entregas de todas as intimações da superintendência. Em todo momento são acionados para dar apoio ao NSD, tendo que buscar e tomar conta de autoridades, em situações que se iniciam quase de madrugada e terminam tarde da noite, ficando longas horas parados em portas de hotéis, restaurantes e centros de convenções.
Para aumentar o desprestígio de fazer parte da delegacia, cada setor é chefiado por um delegado. Sim, em setores de entrega de intimação, escoltas e todas as atividades de baixa complexidade, há um delegado chefe para tomar conta dos agentes, como se, até para entregar intimação, precisem que outro cargo tome conta de seus serviços.
Boa parte desses agentes tem mais de 20 anos de experiência profissional, tendo assumido várias chefias no decorrer de suas carreiras, e hoje são relegados a trabalhos semelhantes ao de carteiros e de segurança de presos. Enquanto os delegados de seus concursos são superintendentes, chefes de descentralizadas e coordenadores centrais, esses agentes, que têm o mesmo nível de formação acadêmica e tempo de serviço, sofrem a humilhação de serem jogados em serviços sem qualquer complexidade e de baixo prestígio dentro do órgão.
Além de tudo isso, criou-se uma total incerteza funcional. Não é possível o agente fazer qualquer programação em sua vida pessoal. Telefonemas são feitos repentinamente aos policiais do setor, são informados no período noturno que terão que comparecer de madrugada em algum lugar, fazer uma escolta não prevista ou acompanhar por dias uma autoridade que estará chegando na cidade no dia seguinte. Muitos reclamam que não conseguem sequer marcar um dentista, ou agendar uma consulta médica porque a agenda muda a todo o momento. Sabem que qualquer atividade desgastante que surja, serão acionados, independentemente do horário e finais de semana.
Tal situação está ocasionando sérias consequências psicológicas nos policiais, não pelo excesso de trabalho, coisa que já estão acostumados e faz parte da profissão, mas sim pela humilhação e desvalorização constante as quais estão sendo submetidos. Vários já foram obrigados a entrar com licença médica psiquiátrica, muitos estão entrando em depressão profunda e outros estão no limite do stress.
É uma bomba que está para explodir, aumentando a tensão entre categorias no departamento e levando os policiais ao limite do stress pela simples filosofia de que só um cargo tem direito ao respeito dentro do DPF.
O sindicato está de olho.
Fonte: SINDPOLF/SP






Comments are closed.