Fonte: Jornal de Brasília
Insegurança e medo definem o sentimento dos brasilienses diante da violência no Distrito Federal. Do início do ano a abril, a capital registrou 245 homicídios. Isso quer dizer que duas pessoas foram assassinadas por dia na capital da República. E o pior: a população não se sente segura nem dentro de casa. Vive o pavor de ser vítima de assassinatos, sequestro relâmpago, assaltos, estupros e latrocínios e se esconde atrás das grades em busca de proteção.
A sociedade pede soluções rápidas aos altos índices de violência no DF. A avaliação é da especialista em segurança pública da Universidade Católica de Brasília (UCB) Marcelli Figueira. E para o consultor em segurança Jonas Melo, falta a presença da polícia nas ruas do DF. “A sensação geral é de insegurança porque as pessoas não vêem policiais. Elas se sentem sozinhas na luta contra o crime. Muitos, nem mais registram as ocorrências. Outro dia vi o caso de uma mulher que foi assaltada e ficou dois dias esperando a perícia. Como uma pessoa dessa pode se sentir segura?”, questiona.
Essa semana, um corretor de imóveis, de 44 anos, e sua namorada, 43, foram surpreendidos dentro de casa por cinco criminosos, na Samambaia. Nem o muro da residência, com mais de três metros de altura, pode deter os assaltantes, que tentaram estuprar a mulher e espancaram e torturaram o homem.
Os momentos de terror traumatizaram o casal, que pôs a moradia à venda. E não se trata de um caso isolado. Só neste ano, foram registradas mais de 90 ocorrências de invasões a residências no DF.
Reféns
“O crescente histórico de crimes na região mostra nada mais do que a falta de rigor na legislação. Os criminosos, hoje, sabem que não punidos pelos seus atos graves”, afirma o analista de segurança pública da UCB, Nelson Gonçalves. Para o professor, as leis brasileiras devem inverter a certeza de impunidade para a de punição. “Enquanto isso não acontece, os moradores do DF vão continuar reféns, tentando se cercar de todas as formas que prometem segurança, como câmeras, grades e alarmes”, salienta.
O militar Marcos Mattos, marido da professora Cristiane Silva Mattos, assassinada no final de março durante um assalto no centro de Brasília, afirma que a insegurança ficou maior. “Fico pensando que se tivesse mais segurança, não teria acontecido o que aconteceu”, defendeu o militar, ainda abalado.
Para não correr mais riscos
Seja em áreas nobres ou em locais mais carentes, o cidadão faz o que pode para se proteger, inclusive trabalhar atrás das grades. “Fomos assaltados só uma vez, mas foi o suficiente pra resolvermos colocar grades. O pior prejuízo é emocional, porque não tivemos tanto dinheiro levado. Mesmo assim, ninguém quer passar por algo parecido de novo, ter uma arma apontada”, disse a dona de um salão de beleza, em Ceilândia.
“Acho vergonhoso trabalhar assim. A gente que é de bem precisa ficar atrás das grades e quem devia estar preso são os bandidos”, reclamou.
A poucos quilômetros do salão, um comerciante resolveu gradear o mercadinho que tem, após uma sequência de roubos. “Tivemos dois assaltos em uma semana, pelos mesmos bandidos. Em um deles, tivemos R$ 3 mil de prejuízo”, relembrou. “Quando eu conheço o cliente, chamo para entrar no mercado. Se é uma pessoa desconhecida, atendo do lado de fora, mesmo, para não correr o risco”, disse.
A medida radical incomoda os clientes. A dona de casa Luzinete Vidal deixou de frequentar um comércio depois que o dono pôs grades na fachada. “Incomoda bastante”, revelou. No entanto, Luzinete reconhece que a violência requer esse tipo de cuidado. “Conheço muita gente que já foi roubada. Eu mesma tive um enteado baleado após um assalto e já fui vítima de dois furtos”.
A comerciante Luíza Caetano pensa em vender a loja de roupas por conta da violência. No último fim de semana tentaram arrombar o comércio e também houve um assalto, com prejuízo de R$ 5 mil. “Pagamos segurança aos sábados, porque muitos marginais entram na loja no fim de semana. Não tenho mais coragem de ficar aqui sozinha. Quando roubaram, trancaram a gente no banheiro. Foi horrível”.
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