Fonte: Correio Braziliense
Assunto em pauta tanto em ambientes de empresas públicas quanto no setor privado, a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) será tema do II Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida no Trabalho no Serviço Público Brasileiro, que ocorrerá em agosto (28 a 30), no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília. Sob o “guarda-chuva” da QVT, no entanto, muitas questões têm sido tratadas, com diferentes abordagens.
A corrente hegemônica em vigor no Brasil atual é a linha assistencialista, cuja leitura do trabalhador como “recurso humano” promove uma confusão entre o interesse da organização e o interesse das pessoas e, por consequência, busca maneiras de amenizar os problemas frequentes nos contextos corporativos. O foco, ao final, segue o velho pressuposto de maximizar a produtividade e o lucro, atenuando conflitos e minimizando os efeitos dessa perspectiva sobre os trabalhadores.
Nessa linha assistencialista, empresas fornecedoras de projetos e programas de QVT atuam em diversas frentes, oferecendo desde atividades culturais e de lazer, como canto coral e feiras, até todo tipo de terapias alternativas, como massagens, práticas antiestresse, alongamentos, mapa astral e um sem-fim de novidades no ramo. É o que se pode chamar, criticamente, de “ofurô corporativo”.
Essa linha de ação não leva em conta pesquisas que mostram a insatisfação dos trabalhadores com as condições precárias de trabalho, a desvalorização profissional, a falta de planos de carreira e de outros estímulos. Em especial no serviço público, são comuns os conflitos entre servidor e os usuários cidadãos, geralmente insatisfeitos — quase sempre com razão — com o mau atendimento, cujas causas, em geral, não são de responsabilidade dos atendentes.
Diante desse quadro, cabe aos especialistas das ciências do trabalho e da saúde e de políticas de gestão repensar a QVT sob novos ângulos, capazes de reverter os focos individualista, assistencialista e produtivista. A primeira alternativa que se oferece à visão assistencialista hegemônica no campo da QVT inverte a abordagem usual ao levar o problema ao próprio público-alvo — os trabalhadores. A eles se deve perguntar, sem a tentação de “engavetar” as respostas: para você, o que é qualidade de vida no trabalho?
Pesquisas já conduzidas sob esse enfoque apontam um diagnóstico e um sentido de transformação: o trabalhador vê o trabalho como fonte de prazer (com reconhecimento, saúde, segurança e consequente eficácia), como valorização do tempo de vida (visto que a maioria das pessoas sente que passa mais tempo trabalhando do que em casa), condições adequadas (incluídos aí iluminação, mobiliário, recursos materiais, local arejado, equipamento e suporte técnico), organização do trabalho (horários, prazos e metas), relações socioprofissionais saudáveis (relacionamento sem conflitos com colegas, chefias e clientes), reconhecimento e crescimento profissional (divisão justa de trabalho, oportunidade de exercício da capacidade e criatividade de cada um, remuneração).
A partir desses parâmetros, podem-se construir propostas relacionadas à qualidade de vida no trabalho que fujam à linha assistencialista hegemônica, que investe apenas no “ofurô corporativo” e não leva em conta as questões que realmente importam nas relações de trabalho.
No II Congresso Brasileiro de Qualidade de Vida no Trabalho no Serviço Público Brasileiro, os principais destaques das conferências serão apresentados pelos professores Mário César Ferreira, Rodrigo Rezende Ferreira e Tatiane Paschoal, da Universidade de Brasília (UnB), e Ana Cristina Limongi-França, da Universidade de São Paulo (USP). A professora Pascale Levet, da Agência Nacional pela Melhoria das Condições de Trabalho (Anact), da França, também participará do congresso. A programação completa do evento pode ser conferida na página do congresso na internet: www.cqvtspb.com.br.
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