Fonte: Folha de S. Paulo
Falta de efetivo noturno em área vizinha a Peru e Bolívia compromete combate ao narcotráfico e à imigração ilegal
Folha acompanhou a Operação Ágata 7, maior mobilização de militares e civis no país desde a Segunda Guerra
Na semana passada, um grupo do Exército brasileiro patrulhava de barco o rio Acre, na tríplice fronteira entre Brasil, Bolívia e Peru. Os militares pararam uma canoa em busca de coca ou contrabando. Enquanto vistoriavam o barco, o boliviano Bento Gonzalez atravessava tranquilamente a pé, atrás deles, pelo igarapé que separa o Peru da Bolívia. Tinha ido comprar macarrão no Peru.
“Tem documentos?”
“Não, não é preciso. Sempre cruzo para o Peru e para o Brasil sem documentos.”
Na fronteira entre as cidades de Bolpebra (Bolívia), Iñapari (Peru) e Assis Brasil, Brasil, não há fiscalização. A única vistoria ocorre no posto da Receita Federal e Polícia Federal em Assis Brasil –mas, depois das 20h, não há ninguém trabalhando lá.
“Não temos efetivo suficiente para fazer o turno da noite”, diz o delegado Flávio Henrique de Avelar, da Polícia Federal do Acre. Cerca de 20% da cocaína do mundo é produzida na Bolívia, 42% no Peru e 38% na Colômbia.
Assis Brasil, por onde entram também os refugiados haitianos, é uma boa amostra do desafio que representa patrulhar os 16,9 mil quilômetros de fronteira.
As Forças Armadas iniciaram em 18 de maio a Operação Ágata 7, sua maior mobilização desde a Segunda Guerra Mundial –cerca de 25 mil militares e 10 mil civis de órgãos como a Polícia Federal espalhados pela fronteira. A meta é desenvolver uma ação coordenada entre Forças Armadas, PF, Força Nacional e Polícia Rodoviária e inibir tráfico e outros crimes.
A Folha acompanhou quatro missões da operação, no Acre e em Rondônia, na fronteira com a Bolívia e o Peru, durante uma semana. Ficou claro que policiar a fronteira é um desafio enorme.
Há acordos para estimular a integração das populações nas fronteiras e muitas vezes não se fiscaliza na divisa. Mas a ideia é que a vistoria se dê a alguma distância dali, o que muitas vezes não ocorre.
Um bom exemplo é a ponte que liga Puerto Evo Morales, Bolívia, e Plácido de Castro, Brasil. Brasileiros cruzam a fronteira para comprar nas lojas baratas dos bolivianos, e os bolivianos, para usar escola e hospital no Brasil. Não há nenhum tipo de fiscalização. Entra e sai quem quer.
O primeiro posto de fiscalização 24 horas fica a 70 quilômetros dali e, antes dele, há estradas de terra que permitem desviar da vistoria.
No rio Abunã, que separa os dois países, é a mesma coisa. Segundo policiais, passa gente em canoas levando pasta-base de coca. Uma caixa de cigarros, com 500 maços, comprada por R$ 350 na Bolívia, sai por R$ 800 no Brasil.
“Dá uma olhada aqui nas margens do rio, não tem nada, qualquer um pode passar; a gente não tem efetivo para estar em todos os lugares”, diz o tenente André Lima Costa, 28 anos. “É uma utopia a vigilância de 100% da fronteira”.
Patrulhar as fronteiras não é atribuição das Forças Armadas. Isso cabe à PF. Mas desde 2010 leis dão às Forças poder de policiar e prender em flagrante na faixa de 150 km a partir da fronteira.
“Nós apreendemos três tratores e motosserras de madeireiros ilegais”, contou o tenente Rogério Carvalho, que chefiou missão em Mapinguari. “Mas não estamos aqui nos outros 360 dias do ano.”
A reserva ambiental federal Mapinguari tem 18 mil quilômetros quadrados, quase do tamanho de Sergipe. Mas só dois agentes do ICMBio fazem a fiscalização. Resultado: todo dia sai do parque um caminhão carregado de ipê, jequitibá, cedro ou roxinho. Na cidade de Extrema, perto do parque, há 6.000 habitantes –e 38 madeireiras.
Uma das principais apostas para a fiscalização é o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, conjunto de radares cujo valor total deve chegar a R$ 12 bilhões.
“Nossa fronteira é muito extensa e os rios não são obstáculo, tudo isso facilita a entrada de drogas”, diz o general Ubiratan Poty, da 17ª brigada de infantaria de selva.
“Nem os EUA, que só têm 3.100 km de fronteira com o México e não têm selva, conseguem evitar que os mexicanos entrem”, diz um oficial.
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