Não estivesse atrás das grades, Daisy Miolli, de 26 anos, passaria por uma universitária de classe média. É difícil assimilar que essa jovem de 1,70 metro, voz suave e rosto delicado já cruzou a fronteira do Brasil com a Bolívia dezenas de vezes carregando droga escondida em sacos plásticos na lata de lixo dos ônibus, mercadoria que ela repassaria mais tarde a traficantes de Campo Grande, sua cidade natal. Logo, Daisy começou também a vender a cocaína, tornando-se uma grande fornecedora local. Ela chegou ao topo da organização clandestina. Chefiou um grupo de 22 traficantes especializados na rota boliviana. Daisy foi presa em 2006. “Na cadeia, só pensava em voltar para o crime e faturar ainda mais”, diz a moça, notória no submundo com o apelido de “Gatinha do Tráfico”. Em sua segunda passagem por penitenciárias, desta vez condenada a seis anos e meio, Daisy não vê mudança no seu horizonte: “Subi na vida com a droga e, mesmo estando neste buraco, não digo que seja página virada”.
Daisy e as outras que ilustram esta reportagem reforçam a estatística espantosa acerca da população carcerária feminina no Brasil. Dados recentes, colhidos pelo Departamento Penitenciário Nacional (Depen) nos 160 presídios que recebem mulheres no país, mostram que são justamente as que se envolvem com o comércio ilegal de drogas que estão fazendo lotar as cadeias. Hoje, de cada dez novas detentas, sete foram condenadas por tráfico ou por praticar algum crime em que a droga foi a motivação. O novo levantamento também verte luz sobre certos estados brasileiros localizados em regiões de fronteira, como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde a situação se agrava. Ali, 90% das presas encarceradas respondem por crimes ligados ao tráfico. “Se até dez anos atrás as mulheres eram um fator secundário, hoje não dá para pensar em reduzir o comércio de drogas sem coibir fortemente a ação delas”, afirma Wagner Mesquita, delegado da Polícia Federal que desbaratou a quadrilha do traficante Fernandinho Beira-Mar e assessorou a CPI do Narcotráfico.
As mulheres que relatam suas histórias nestas páginas fazem parte de um grupo de 103 ouvidas por VEJA em nove estados brasileiros de todas as regiões. O mosaico que emerge daí confirma alguns fatos conhecidos sobre o universo feminino do tráfico e revela outros. A maioria é jovem, pobre, pouco estudou e, quando ingressa no crime, quase sempre transportando ou vendendo cocaína, ocupa funções subalternas na hierarquia das quadrilhas. Elas costumam estrear como “mulas” (caso de 53% das entrevistadas antes de ser capturadas), levando a droga pelo Brasil e para o exterior. Não raro, a cocaína é trazida no próprio corpo, em pequenas cápsulas embaladas em plástico e engolidas com o auxílio de anestésicos, ou até a seco. Se uma pílula se rompe no estômago, o efeito é o de uma overdose, com grande risco de morte. Mas a perspectiva de faturar alto com a viagem – de 1000 a até 10000 reais, dependendo da rota e da quantidade de drogas carregada – supera o medo. O material dá conta ainda de uma mudança recente: um número razoável dessas mulheres já experimentou alguma ascensão no crime (27 das 103 mulheres ouvidas). Parte subiu depois que o marido foi preso e deixou o posto vago. Outras galgaram posições ao longo de anos, como Sandra Helena Ferreira Gabriel, de 46 anos, e Roseli dos Santos Costa, de 43, que alcançaram o posto máximo da bandidagem em morros cariocas. “Já ganhei muito dinheiro no crime”, diz Roseli (ver o quadro na pág. 126).
Uma das causas da presença maior de mulheres no tráfico é a própria expansão do comércio ilegal de entorpecentes no Brasil – e no mundo. Segundo um recente relatório da UNODC, a agência da ONU para drogas e crime, o consumo de cocaína no mercado internacional dobrou na última década, chegando a 280 toneladas por ano só no Brasil. Além disso, o recrudescimento dos esforços repressivos por parte de países como os Estados Unidos obrigou os barões do narcotráfico a buscar rotas alternativas e a mudar a geografia do negócio – o que consolidou o Brasil como entreposto. São necessários, portanto, mais braços para mover a engrenagem, e aí entram as mulheres. “Elas são sempre as últimas a se inserir em qualquer mercado. O fato de estarem aderindo ao tráfico é um claro sinal de que a atividade está crescendo”, observa o doutor em economia João Manoel Pinho de Mello, coautor do livro The Economics of Crime (A Economia do Crime, ainda sem tradução para o português). Soma-se a isso tudo um fenômeno demográfico. As mulheres brasileiras, em sua maioria das classes D e E, estão cada vez mais na posição de chefe de família: o grupo aumentou em 33% nos últimos dez anos. “Evidentemente, nada justifica seu ingresso no narcotráfico, mas, nesse contexto, dificilmente elas resistem à tentação de partir para uma atividade ilegal”, diz a socióloga Julita Lemgruber.
No panorama global, a crescente presença feminina no comércio de entorpecentes é reflexo também de uma transformação na base do negócio – lógica que começa a se replicar no Brasil. Cartéis e grandes quadrilhas ainda existem, mas o modelo, cujo ápice se deu com o colombiano Pablo Escobar – que nos anos 80 chegou a controlar 80% do comércio mundial de cocaína –, está em declínio, dando lugar a organizações menores e mais profissionalizadas. Trata-se de uma reação ao cerco mais ostensivo ao tráfico de entorpecentes no mundo inteiro. O rearranjo atende ainda a uma mudança no padrão de comportamento dos consumidores em grandes metrópoles, que já não têm a mesma disposição de antes para subir morros ou se embrenhar por bairros ermos atrás da droga. Os criminosos trataram de criar então estruturas mais pulverizadas e complexas de distribuição, semelhantes a franquias. “Essa nova ordem do tráfico, baseada em pequenos e médios negócios de hierarquia mais flexível e sem tanto banho de sangue, está favorecendo a entrada das mulheres”, conclui Cláudio Beato, diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O deslumbramento com a rápida, ainda que passageira, ascensão proporcionada pelo tráfico é um ingrediente comum à trajetória de muitas das mulheres que aparecem nestas páginas. “Cheguei a ter motorista particular e bancar escola cara para meus quatro filhos”, conta Doracy Oliveira Pires, de 62 anos – a mais velha e experiente do grupo e que hoje, cumprindo pena de catorze anos em uma cadeia de Boa Vista, em Roraima, faz o balanço: “A droga me levou ao topo e ao buraco”. Algumas delas conquistaram com as drogas um passaporte para festas da alta-roda, em que desfrutavam prestígio e poder. “Tenho saudade daquele tempo de glamour”, diz Michele de Lacerda Pinto, de 29 anos, ex-estudante de letras gaúcha que embarcou no crime ao lado do marido. Ambos estão na prisão. No rol de histórias, também são inúmeros os casos de moças que, arrebatadas pela paixão por criminosos, acabaram elas próprias enveredando pela bandidagem. É o caso de trinta das entrevistadas.
Quando a porta da cela se fecha, a realidade da cadeia se impõe. Poucas recebem visitas. Os maridos e namorados, em geral parceiros de crime, costumam desaparecer, e a vaidade se esvai. Quase todas são mães – um terço delas teve o filho na cadeia. O filme Maria Cheia de Graça, uma coprodução colombiano-americana, traça um retrato despido de estereótipos da participação das mulheres no tráfico. Maria, a protagonista, é seduzida pelo “trabalho bacana que paga bem”. O bandido que a recruta mente sobre os riscos de prisão: “Só vão para lá as mulheres que querem ficar famosas”. Assim como Maria, as mulheres ouvidas por VEJA subestimaram os riscos. Na cadeia elas se dão conta de que são apenas infelizes operárias de uma infernal hierarquia criminosa.
COM REPORTAGEM DE HELENA BORGES, GABRIELA ROMÉRO E MARCELO BORTOLOTI
Droga nas altas-rodas
“Eu ainda estava na faculdade de letras e meu marido trabalhava em uma metalúrgica quando começamos a vender cocaína. Era uma atividade paralela boa. Ganhávamos por mês uns 12000 reais. Tínhamos prestígio com os clientes ricos. Nas baladas, éramos o centro das atenções. A alta sociedade também ia a nossa casa, um apartamento alugado com o dinheiro do tráfico, para buscar a droga. Um dia, um vizinho nos dedurou. Já na prisão, em uma visita íntima de meu marido (que ficou no mesmo presídio), engravidei. Só que, agora, estou sozinha. Tenho saudade dos tempos de glamour”. Michele de Lacerda Pinto, 29 anos, presa em Caxias do Sul e sentenciada, em 2010, a dez anos de prisão.
19000 reais por viagem
“Casei, separei e tive filhos muito cedo. Aos 20, um amigo da favela na loja em que eu trabalhava me fez uma proposta irrecusável: ganharia 9000 reais para cada ida ao Rio de Janeiro e a São Paulo para trazer cocaína de Cuiabá. Carregava até 18 quilos comigo no ônibus. Ninguém desconfiava. Em dois anos, como era discreta e inspirei confiança, fui promovida e passei a levar também o pagamento aos bandidos. Em uma madrugada, abriram minha mala. Em cinco minutos tudo acabou”. Josélia Gonçalves Rodrigues, 23 anos, presa em Cuiabá e sentenciada, em 2009, a seis anos e meio de prisão.
“A droga me levou ao topo e ao buraco”
“Vivia de fazer faxina até descobrir a cocaína. Com a ajuda de um vizinho, comecei por baixo, preparando a pasta-base. Depois, resolvi ir buscar eu mesma a droga em Tabatinga, no Amazonas. Conseguia uma dinheirama no varejo de Boa Vista. Recrutei mais gente e expandi o negócio. Bancava motorista e colégio particular para meus quatro filhos. O sonho não durou. Um filho foi assassinado por traficantes e outros dois estão presos. A droga me levou ao topo e ao buraco”. Doracy Oliveira Pires, 62 anos, presa em Boa Vista e sentenciada, em 2009, a catorze anos de prisão.
22 pessoas trabalharam para ela
“Desempregada, topei trazer drogas da Bolívia e cheguei a ser presa uma vez, mas não me abalei. Foi só sair da cadeia para investir os 18000 reais que havia economizado em uma nova remessa. Em pouco tempo, formei uma rede de 22 pessoas que passaram a fazer o serviço para mim. Elas chegaram a trazer do mercado boliviano 40 quilos da droga por mês. Com isso, abastecia Campo Grande e outras capitais. Em um Carnaval, faturei 380000 reais. Dá para imaginar como será difícil resistir às tentações do tráfico quando sair daqui”. Daisy Miolli da Silva, 26 anos, presa em Mato Grosso do Sul e sentenciada, em 2008, a seis anos e meio de prisão.
“Era o tipo que os chefões valorizavam”
“Os chefões do meu bairro gostavam de mim e, aos 15 anos, acabei me casando com um deles. No início, só consumia a droga, mas fui me envolvendo com o negócio. Passei a cortar saquinhos para embalar a cocaína e, volta e meia, vendia aos vizinhos. Um dia, a polícia me pegou com a droga em casa. Cheguei grávida à cadeia, mas perdi o bebê. Não tenho mais amigos. Aos 19 anos, a única coisa que me anima é concorrer ao concurso de Miss Penitenciária”. Kettryllen Ochiro (conhecida como Japinha), 19 anos, presa em fevereiro, em Mato Grosso do Sul. Aguarda julgamento.
“Queria um dinheiro fácil”
“Meus amigos começaram a usar crack e, para acompanhá-los, eu precisava vender a droga. Nesse meio, conheci meu marido. Não que eu não tivesse família. Morava em São Paulo com minha mãe, que é enfermeira, mas me desgarrei. Quando ela se mudou para o Rio de Janeiro, preferi voltar para o Pará, onde nasci. A verdade é que nunca quis trabalhar muito para ganhar pouco. E o tráfico traz um dinheiro fácil: eu recebia até 400 reais em um dia. Adorava. Não me arrependo dessa vida. Só fico triste de ter deixado meus filhos para trás”. Ana Paula Lopes de Lima, 22 anos, presa em julho, no Pará. Aguarda julgamento.
Ela servia ao PCC
“Aos 13 anos, eu me apaixonei perdidamente por um traficante, com quem tive dois filhos. Só andava de carro do ano e tinha dinheiro à vontade. Mas ele acabou morrendo na cadeia e logo conheci outro criminoso, ligado ao PCC, que também foi preso. Foi aí que estreei no crime. Orientada por ele, levava, de ônibus, cocaína, crack e até armas para outros estados. Faturava 1000 reais por viagem. Um dia, fui presa na fronteira com a Bolívia, carregada de drogas. Era boa nisso. Não sei fazer outra coisa na vida”. Roseane Aparecida Ramos, 25 anos (e 32 tatuagens), presa em São Paulo e sentenciada, em 2009, a seis anos de prisão.
Fonte: Veja






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