Documentos do antigo SNI mostram que arapongas recebiam treinamentos para escutas clandestinas desde 1960
Edson Luiz
Da equipe do Correio
O serviço secreto do país, hoje representado pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), começou a ser reformulado em 1960 ensinando a seus espiões práticas irregulares, sendo que algumas delas ainda perduram atualmente. Documentos que pertenciam a um ex-integrante do Serviço Nacional de Informações (SNI), obtidos pelo Correio, revelam que há quase 50 anos, os agentes já eram orientados a praticar operações clandestinas, como as sangrias, ilegalidade que hoje conhecemos por grampos telefônicos, adotados a partir de 1960. Foi nesse período em que as ações ganharam ainda mais um caráter militar, já que todos os instrutores eram integrantes das Forças Armadas. Entre eles, o ex-presidente João Baptista de Figueiredo, então tenente-coronel do Exército.
Entre abril e novembro de 1960 o serviço secreto brasileiro fez manuais de orientações específicas para seus agentes sobre dois temas: as “noções sobre operações clandestinas” e “operações técnicas”, que definiam como os alvos deveriam ser monitorados por gravações e escutas telefônicas. Para o primeiro caso, os arapongas ensinavam que em períodos de guerra ações ilegais eram comuns. “Se imperassem a razão e o respeito mútuo não seria necessário recorrer permanentemente a recursos dessa natureza, todavia, infelizmente, estamos muito longe desse ideal e, para subsistir em um mundo cujos governos há milhares de anos realizam ações clandestinas, somos obrigados a nos valermos delas”, justificou a comunidade de informações.
No segundo caso, o serviço secreto praticamente criava as mais “modernas” práticas de espionagem eletrônicas. O que hoje se chama de grampos na época era conhecido entre os agentes de informações como sangrias. Desenhos feitos de forma rudimentar mostravam como as escutas telefônicas deveriam ser feitas. “A sangria convencional é feita com os meios utilizados pela companhia telefônica: um combinado ligado ao fio do telefone do telefone interceptado. Esse meio é execução mais difícil e mais fácil de ser detectado”, ensinava o manual. Outra técnica não chegava a ser inusitada, mas estranha: “Os aparelhos para surdez usados atualmente para compensar deficiências auditivas são, muitas vezes, de grande utilidade para o agente, não só por serem extremamente sensíveis, como por possuírem, quase todos, um dispositivo de indução para a escuta telefônica”.
As operações dos agentes muitas vezes utilizavam os dois métodos: a clandestinidade e as escutas telefônicas. Em 1960 o serviço secreto descobriu os pequenos gravadores à pilha, que eram os mais modernos dos equipamentos utilizados. Tinham lá seus inconvenientes, como instalá-los no local onde estaria o alvo, exigiam escuta permanente e as gravações poderiam ser prejudicadas por ruídos de ventiladores e barulho da rua, por exemplo. Mas as vantagens também eram grandes, ensinavam os oficiais graduados aos futuros agentes: “Não exige fios que denunciam o meio clandestino, permite gravação e é permanente”.
Outro documento, que curiosamente tinha uma faca desenhada, mostrava a escala dos instrutores das turmas. Entre eles estava João Figueiredo, o então tenente-coronel que, anos depois, se transformaria em general e presidente da República. O militar era chefe da Subseção de Operações (SSOP) e ensinava os futuros agentes a fazer entrevistas, interrogatórios e provocação dos alvos.







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