
Começamos essas escritas com tristes lembranças relacionadas às famílias daqueles que se foram. Motivados por causas, muitas vezes, desconhecidas, mas que tiveram seu fim facilitado pela ausência de segurança.
Deixamos aqui nossos sentimentos e esperamos poder colaborar para que não mais aconteçam suicídios nas áreas em que os poderes públicos devem se fazer presentes. Mesmo que estejam localizadas em locais particulares.
Brasília tem sido palco, nos últimos anos, de uma série de suicídios. Sendo a campeã em números proporcionais e onde houve, em absoluto, a maior quantidade de mortes em Shopping Centers, com nada menos que doze mortes registradas. Deve ser ressaltado que pode ser, ainda, maior o número, pois as estatísticas podem não ter sido atualizadas.
Quer dizer que pessoas se matam em lugares públicos e na realidade ninguém faz nada de concreto. Afirmo e reafirmo, pois no Pátio Brasil, pessoas, na maioria jovens, tem se matado partindo do mesmo lugar e tudo continua igual, inclusive o pacto de silêncio que impera entre administração, lojistas e funcionários.
O suicida, na verdade, é alguém que, por algum motivo, sofre pressão tão grande, que não suportando, não vê outra saída senão dar fim a própria vida. Os estudos demonstram que, na maioria dos casos, antes de agir em definitivo, vários sinais são passados para aqueles com os quais se relaciona, mas nem sempre são percebidos ou interpretados.
Esses mesmos estudos afirmam que poderá ser refeito o ciclo, se a tentativa, ou tentativas de tentar dar fim à sua vida, for interrompido. Ou seja, quer dizer que quando não conseguir se matar, poderá repensar a decisão e desistir da morte, ante a dificuldade e reiniciar os seus dias.
Não consigo acreditar que na Capital Federal, pessoas se matem, pulando da torre do mais famoso centro comercial do Plano Piloto e as autoridades públicas se omitam respaldadas em laudos ou supostas normas técnicas que permitiriam que as atividades continuassem sem que mudanças fossem feitas.
Outro dia li em algum jornal que a Defesa Civil teria apresentado à administração do shopping, uma série de sugestões, que estariam sendo analisadas. Recebi uma mensagem pela internet, contando que os responsáveis informaram oficialmente que a construção está dentro das exigências e normas presentes na construção civil.
Não é possível que a Lei seja tão ruim, mas se for, que se mudem as leis para evitar mais mortes. O Governo não pode facilitar o suicídio e sim tentar impedi-lo. No passado, a torre de TV era um local perigoso com uma pequena proteção. Após vários suicídios, o tamanho das grades foi aumentado e mais nenhum caso foi registrado.
No Pátio Brasil Shopping as mortes continuam ocorrendo e as famílias das vítimas sequer conseguem respostas para seus questionamentos. Apenas o silêncio e a estrutura já conhecida para desmontar o circo da tragédia, disfarçando o local da morte, para que não se estrague o comércio.
É uma seqüência de absurdos, tão grande, que fica difícil dizer quem é o maior culpado: se é o empresário que apenas visa o lucro e não quer gastar com uma grade maior ou um vidro blindado adequado à necessidade de segurança; se é a polícia, que apesar da repetição da rotina dos suicidas, não indicia o responsável pela falta de segurança; se é a Defesa Civil, que na realidade não consegue antever o problema iminente buscando a adequação da regra; se o Ministério Público, sempre tão atuante, mas que nesse caso não conseguiu o elo entre a proteção da vida e o risco permitido pela imprudência ou se os culpados são os políticos que não fizeram uma lei digna que melhore, nesse caso, a segurança pública.
No final das contas quem paga é sempre o contribuinte, que apesar de cumprir com suas obrigações fiscais e sociais, não recebe a contrapartida do Estado, que deveria oferecer saúde, educação e segurança, pilares básicos de qualquer sociedade organizada, mas que são sempre prometidas nos palanques pelos políticos acostumados a continuar prometendo e mentindo.
No caso da construção de um shopping center daquele porte é preciso Ética e boa vontade, para que sejam adotadas as medidas necessárias para se evitar novas mortes.
Não estou querendo com essas palavras buscar apenas críticas e punições para os culpados, o importante é ter atitude. Os envolvidos tem que encarar o fato como coisa séria e não como apenas um simples negócio que visa gastar pouco para manter o lucro ou findado nas saídas jurídicas de um sistema legal e jurídico pernicioso.
Tenho certeza que a cada nova vítima, todas as famílias que já sofreram se unem em pensamento, relembrando a dor da fatalidade desassistida, já que ainda, não lhes mostraram remédio ou solução, para mais um caso de insegurança, motivada pela ausência do poder público.
Se o Governo nada faz, está na hora dos comerciantes que abrem suas portas diariamente no Pátio Brasil, começarem a fazer, pois juntos podem impor, mesmo que arcando com as despesas da mudança, pois caso contrário poderá haver um levante social, que convença pacificamente os clientes a escolherem outro local em que se perceba maior responsabilidade social.
Em breve chegará o dia em que entidades que representam a sociedade civil se organizarão, promovendo passeatas, a exemplo do que acontece em outros países, onde se preocupa com o bem estar do cidadão e outros atos que buscam o direito daqueles que não conseguem, de forma solitária, fazer com que suas vozes sejam ouvidas.
De qualquer forma, como bom brasileiro, confiante tanto da força da democracia, como na representação do povo, acredito que chegará o dia em que haverá, pelo menos, um político que de forma séria, trabalhará em prol da sociedade e de suas mazelas, deixando de lado a força do capital econômico e confiante ainda na força proveniente da comoção popular. Encerro exprimindo os sinceros pêsames àqueles que sofrem com o problema aqui narrado e, de antemão, já agradecendo aos que vão se unir para mudar a sociedade.
(*)CLÁUDIO AVELAR é Presidente do Sindicato dos Policiais Federais no DF, bacharel em Direito e Administração, especialista em Direito Público.






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