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mar 04

SEGURANÇA PÚBLICA – COITADO DO POLICIAL, por Luís Cláudio Avelar – Tribuna do Brasil

  • 4 de março de 2009
  • Notícias

Como é possível falar de segurança pública sem verificar quais são as condições de trabalho dos policiais brasileiros, sendo eles federais ou estaduais, civis ou militares?

O fato principal da falta de segurança pública, sem dúvida, é a ausência do Estado. Essa ausência é verificada desde o momento em que o crime está ocorrendo até a conclusão do processo judicial, passando pela forma de como a polícia atua e a morosidade do sistema criminal como um todo.

Na verdade, em se tratando do trabalho policial, é preciso sempre levar em conta as condições em que o profissional atua. Ou seja, a forma, os equipamentos, as armas, as viaturas e principalmente se está habilitado e capacitado a exercer a função policial.

O nível de stress a que é submetido o trabalhador da polícia é altíssimo e de grande relevância. É um dos motivadores dos elevados índices de suicídio na corporação. A categoria policial é uma das que mais apresenta esses casos, pelas peculiaridades do serviço, além da pressão enfrentada no dia a dia. Muitas vezes, numa fração de segundo, o policial deve decidir entre a vida e a morte de alguém. Nem sempre a decisão é adequada e os resultados são imprevisíveis.

Não se pode defender os abusos de autoridade e violência desnecessária, mas também não se pode esquecer que o policial é igualmente vítima do sistema e fruto do meio. É comum receber tratamento desumano, com deficiente condição de vida e muita pressão. A brutalidade, portanto, em muitos casos, é conseqüência, e não causa do problema.

Outro problema verificado nas corporações policiais é a corrupção. Mal desnecessário, mas que existe em todo o serviço público. Porém, não podemos esquecer que existe somente o corrupto, quando também existe o corruptor. Fala-se do policial que recebeu suborno, mas esquecemos que algum infrator está se livrando da cadeia. É preciso que haja rigor para ambos os casos. Felizmente a Polícia do DF, nesse aspecto, não apresenta grande problema. Existem casos isolados, que não comprometem o nome das instituições. A atuação das corregedorias é satisfatória e as apurações tem sido exemplares. É certo que sempre podemos buscar melhorias, mas nesse aspecto, Brasília está de parabéns.

Os salários recebidos pelos policiais civis e militares de Brasília são os melhores do país. Pelo menos, no quesito dignidade financeira, apesar de poder sempre melhorar, a qualidade de vida é melhor e facilita o poder de compra para a família. Em Brasília, o policial tem acesso ao básico com conforto. Situação que não acontece na maioria dos estados da federação.

Outro fator que reflete diretamente no resultado do trabalho do profissional de segurança pública é a motivação. Sem ela o dia se torna mais pesado e as noites intermináveis e não havendo valorização da classe, certamente aparecerão problemas éticos e disciplinares, além da já citada saúde abalada.

Sendo vítimas de chefes perseguidores ou desestimulados pela dureza do trabalho, muitas vezes, o policial se abala e não consegue promover um bom resultado. O ideal é que ao invés de ser reprimido pelas falhas, este deva ser orientado a trabalhar bem. Tudo começa na dinâmica bem elaborada do serviço realizado que pode ser verificado por meio do serviço de acompanhamento psicológico e de adequada política de recursos humanos. São pequenos detalhes que fazem uma grande diferença, mas infelizmente se verifica serem ferramentas que não funcionam como deveriam.

A dignidade do policial também pode ser afetada pelo desestímulo ao desenvolvimento das tarefas diárias. Muitas vezes, o policial se sente subutilizado. O fato de sentir que seu potencial é pouco empregado, pode levá-lo a não prestar um serviço de qualidade ao cidadão. Isso acontece quando os superiores o encaram como incompetente e muitas vezes, não se esforçam para resgatar alguém que pode estar apenas desorientado, condição que fornece um resultado negativo à corporação como um todo.

Observa-se ainda, no destempero da insegurança pública, uma séria e preocupante constatação: a polícia, de modo geral, só começa a atuar depois que todas as instituições como, família, igreja, escola, amigos, etc. , falharam… Quando nada mais adianta, e o crime acontece, é que a polícia aparece. E não esperem que se faça um trabalho preventivo constantemente. Pois essa etapa já foi vencida, o problema já está ocorrendo e precisa ser resolvido.

Percebe-se que realmente, as vezes, o policial está despreparado e inapto ao desenvolvimento de certas atividades. Isso apenas reforça a tese de que é preciso constantemente acompanhá-lo para que seja testado e motivado. Não basta apenas pagar bem, mas sim, motivar o servidor a prestar um serviço de qualidade. Dessa forma, a recompensa chegará em breve com a demonstração da satisfação percebida pela sociedade.

Dentro da análise desse contexto, já está na hora também de reacender a discussão acerca da nomenclatura “Polícia Militar”, em que pese a existência de soldados e coronéis, bem como a necessidade de hierarquia e disciplina. É preciso questionar a viabilidade desse modelo em que a Polícia, que na verdade é civil, ainda tenha que seguir os ditames do regime militar. Fica estabelecida nesse momento, a viabilidade de aquecer tal debate.

Não adianta também, aparecerem os administradores dizendo que se preocupam com o bem estar social comprando novas viaturas e fazendo desfile para apresentar à população os possantes carros. Pois ainda assim, faltarão inúmeros fatores para que se chegue perto de uma sensação de segurança. Muita coisa precisa acontecer. O nível do policial já é bom, a seleção é rígida, os orçamentos estão mais corpulentos, mas ainda falta a lembrança de que o policial merece uma carreira técnica, com critérios objetivos para demonstrar seu potencial e ajuda necessária para superar as dificuldades.

Estamos verificando apesar dos esforços do Governo, aumento substancial nos índices de criminalidade: homicídios, seqüestros, lesões corporais, estupros, etc. Talvez falte apenas gerência, colocando o homem certo no lugar certo e não apenas apadrinhados políticos. Ser delegado ou ser coronel, não pode ser o único critério para ocupação das funções de comando, mas sim o caráter técnico e objetivo que permita que apenas o melhor investigador comande as investigações e somente o melhor administrador, administre a Polícia.

Vamos perguntar o que a sociedade prefere: Quem deve comandar a Polícia? Um político ou um policial de verdade. A resposta pode ser a primeira solução para a insegurança pública.

(*) Presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal.

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