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FRONTEIRAS ABERTAS – Correio Braziliense

  • 5 de outubro de 2009
  • Notícias

Federação de policiais acusa direção da PF de descumprir promessa de retomar ações em base da Amazônia destinada a combater o tráfico de drogas

Considerada uma prioridade para a garantia da soberania do país, a fiscalização das fronteiras continua de mal a pior. Pelo menos no que diz respeito à fronteira fluvial com Colômbia, Bolívia e Peru, países de origem de grande parte da droga que chega ao Brasil. A crise na fiscalização da Polícia Federal é evidenciada pelo descumprimento da promessa do superintendente da PF no Pará, Manoel Fernando Abbadi, de retomar, há cerca de 30 dias, as atividades de uma das mais importantes bases flutuantes da região, a unidade Candiru, localizada em Óbidos (PA). A constatação é da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef).

A base foi desativada no fimde agosto e o superitentendente da PF havia prometido retomar as atividades em poucas semanas, pelo menos de forma provisória enquanto durasse a reforma. A federação de policiais diz que, ao contrário do prometido, os agentes estão de braços cruzados. Segundo o diretor de relações de trabalho da Fenapef, Francisco Sabino, a situação é crítica e demonstra a fragilidade do órgão em um ponto tão estratégico como o da Região Amazônica. “Cerca de 80% das drogas que chegam ao país vêm por rotas fluviais como essa, que estão livres para os traficantes agirem com quiserem. Podemos dizer que a porteira está aberta para o contrabando”, denuncia.

A federação esteve na região antes do fechamento da unidade e agora mantém contato por telefone com os agentes que trabalham no local. Os dirigentes da associação constataram que, além da falta de efetivo e de equipamentos, as condições de trabalho eram degradantes. E fizeram um alerta ainda mais grave: “Hoje, deveríamos ter um efetivo de 180 profissionais para atuar na operação de fronteira entre Brasil e Colômbia em sete bases de fiscalização, entre flutuantes e terrestres, mas todas estão desativadas ou em situação inadequada de trabalho”.

Só a Candiru foi responsável, em 2008, pela apreensão de 600 quilos de droga, a maioria cocaína. A quantidade é bem inferior ao que realmente transita pelas águas do Amazonas, diz a federação. Isso porque, devido à falta de pessoal, os policiais não conseguem captar algumas embarcações que burlam a rota.

Outra base da PF na mesma situação de abandono é a Anzol, situada em Tabatinga (AM), às margens do Rio Solimões. Considerada ainda mais importante pelos agentes, pelo fato de ter sido “modelo para desenvolvimento de novos métodos de combate ao tráfico na região e de aprimoramento aos profissionais”, a unidade foi desativada em abril deste ano, sem previsão para retomada dos trabalhos. Por lá, foram apreendidos 700 quilos de cocaína no ano passado. A insegurança causada com a retirada da base provocou a interferência da Procuradoria-Geral da República (PGR) em Tabatinga, que exigiu o acompanhamento do caso com pedido de relatórios mensais, informando o andamento da licitação das empresas responsáveis pela reforma da unidade.

Contradições

Apesar das denúncias, os responsáveis pelas bases de fiscalização negam que as ações estejam paralisadas por causa da retirada das balsas e que a presença de funcionários na região continua por meio de monitoramento com lanchas. “Não é a situação mais adequada, mas mantemos duas equipes para percorrer toda a extensão necessária e não deixar de realizar os trabalhos necessários”, afirma o superintendente da Polícia Federal no Pará, Manoel Fernando Abbadi.

O superintendente da PF no Amazonas, Sérgio Fontes, foi além e disse que depois da desativação da base Anzol, as condições de trabalho ficaram mais favoráveis porque o deslocamento de lanchas possibilita uma movimentação maior dos agentes entre os cursos do rio, permitindo a abordagem a muitas embarcações. Segundo ele, a base deve voltar à fronteira em meados de janeiro do ano que vem. “Nós estamos fazendo nossas patrulhas normalmente e não diminuiu em nada a quantidade de entorpecentes apreendidos, podendo dizer, inclusive, que o número deve ser até maior devido à mudança de estratégia.”

Sobre a quantidade de pessoal, o delegado concorda que o número é insuficiente, mas que a PF está investindo na região. “A base vai voltar com força total e ainda teremos mais novidades com a chegada de um veículo aéreo não tripulado, capaz de controlar o narcotráfico, crimes ambientais e outros, além da vinda de pessoal com o último concurso público da polícia, que já destina um público específico para atuação na fronteira.”

A reação às declarações dos superintendentes foi imediata. “Isso não está ocorrendo, não sei porque eles dizem isso à imprensa”, rebate o diretor da Fenapef, Francisco Sabino. Sobre o trabalho dos agentes com lanchas, ele diz que a atividade só seria possível se a PF tivesse requisitado profissionais habilitados para operar os veículos, uma vez que os agentes não pilotam os barcos, pois apenas poucas pessoas terceirizadas tinham habilitação.

Um dos agentes que deveria atuar na unidade Candiru conversou com a equipe do Correio e contou um pouco da realidade da equipe. Sob o compromisso do anonimato, ele confirmou as denúncias da Federação Nacional dos Policiais Federais de que os profissionais estão de braços cruzados e que a “porteira está aberta no Amazonas”.

 

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