Por Sandro Araujo
Não é difícil, ao observar o cotidiano dos policiais de todo o Brasil, perceber o quanto anda mal a saúde desses indivíduos, que dedicam suas vidas à manutenção da ordem e à segurança pública. Eu mesmo, na unidade na qual estou lotado, chego a ser “chato”, pregando a necessidade de uma reformulação nos hábitos de vida dos colegas.
Eis que a realidade veio de forma dura, quando soube por esses dias, que meu amigo, colega de curso de formação, policial do mais alto gabarito, chamado por nós de forma carinhosa de “Vovô Garoto”, sofreu um infarto, sendo obrigado a passar por diversos procedimentos médicos.
Não sou capaz de descrever o susto que tomei, quando meu irmão de armas, o APF Guerra chegou com essa notícia. Vovô Garoto, verdadeiramente, não é mais um garoto, mas com idade girando na casa dos cinqüenta anos, sua qualidade de vida teria tudo para ser excelente. Se ele se permitisse…
A verdade é que o cotidiano dos policiais, de todas as classes, de qualquer polícia é extremamente estressante. A falta de empenho daqueles que coordenam a segurança pública em todos os níveis, para que as atividades físicas e o acompanhamento médico sejam elementos obrigatórios na rotina dos policiais é grosseira. Não há mais espaço no mundo atual, para negligenciar a necessidade de qualquer trabalhador ter em sua grade horária, momentos ( institucionais ) voltados para a melhora da qualidade de vida.
Talvez, a minha unidade policial, que é a Delegacia de Polícia Federal de Niterói, possa servir de exemplo para ilustrar isso. Existe uma Instrução Normativa dentro do Departamento de Polícia Federal, que regula a prática de atividade física, dentro do horário de serviço, garantindo ao servidor quatro horas semanais dedicadas a essa atividade. A mesma Instrução, sugere que, diante da falta de espaços voltados para tal fim, dentro das unidades, sejam buscados convênios com clubes e/ou agremiações.
Aqui, firmamos uma parceria com o Departamento Náutico do Clube Naval, um belo complexo esportivo, aberto aos policiais federais às terças e quintas, no horário compreendido entre 8 e 10 horas da manhã. A Associação Nacional dos Servidores paga um professor de educação física para ficar à disposição dos policiais, que quiserem elaborar treinamentos de corrida, natação e até mesmo caminhadas, numa iniciativa que, sem sombra de dúvidas, ofereceria uma melhora da qualidade de vida de quem se dispuser a comparecer ao Clube.
De um total de aproximadamente oitenta servidores lotados nesta unidade, entre dois e cinco comparecem ao Clube, para a prática esportiva. A desculpa da maioria é o trabalho. “Tem muito trabalho…” “Faço atividade em outro lugar…” “O horário é ruim…”
Ouço muita coisa, todos os dias. Como encarregado de montar planos de atividades físicas para os policiais desta unidade e responsável pelo convênio, sinto-me na obrigação de não desistir de tentar levar mais colegas para lá. O próprio Vovô Garoto era um que vivia dizendo “Amanhã eu vou” e nunca ia. Ele, especialmente ele, sempre priorizou o trabalho em sua vida, colocando a si mesmo em um segundo plano.
Meus caros,
Atentem para isso, vocês todos. É uma realidade e não há como fugir disso. Isaac Newton percebeu isso no século XVIII. Toda ação, causa uma reação. Se não separarmos um tempo para prática de coisas saudáveis, de atividades que façam bem, que tragam bem-estar, a conseqüência pode ser trágica. Sem exageros…Tragédia maior na vida de um ser humano é ser um idoso dependente e sem saúde.Meu amigo Vovô Garoto, poderia ter nos deixado, de forma precoce. Por quê? Pela sua dedicação à Polícia? Será que vale à pena, esquecer de si mesmo? No final, poucos levarão tapinhas nas costas em sinal de “agradecimento” pelos serviços prestados.
Como em qualquer relação, o amor próprio, sem egoísmos, deve vir antes do amor pelo Universo Policial. Consciência de que o tempo é implacável para quem o despreza. Pensem nisso, vocês todos. Aqueles que são, aqueles que ainda serão policiais e todos que acordam pela manhã para realizar suas jornadas, seja de estudo ou de trabalho.
Lembrem-se. Se mantiverem o corpo em movimento e a mente saudável, terão que se preocupar menos, quando precisarem se preparar para qualquer coisa. Inclusive para as provas da Polícia Federal, que vêm por aí.
Este post eu dedico ao meu amigo Vovô Garoto. Gostaria muito de publicar seu nome, para que o mundo soubesse que essa pessoa é o excelente policial que o DPF conhece há quase 14 anos. Mas se eu fizesse isso, sendo o indivíduo mais desconfiado do mundo, ele certamente entraria com um processo para mudar o próprio nome na Certidão de Nascimento.
Sandro Araujo é Agente da Polícia Federal Classe Especial, Coordenador do Núcleo de Migração e da Comissão de Vistoria da Delegacia de Polícia Federal em Niterói.






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