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abr 19

MANÍACO É ACHADO MORTO NA CADEIA – Correio Braziliense

  • 19 de abril de 2010
  • Notícias

Pedreiro acusado de assassinar seis jovens estava sozinho em uma cela da Denarc, em Goiânia. Polícia fala em suicídio, mas promete investigar, assim como o Ministério Público

Diego Amorim

Goiânia (GO) — Por volta das 12h30 do segundo domingo preso, Ademar Jesus da Silva, 40 anos, recebeu a marmita do almoço: arroz, feijão e macarrão. Comeu e, em seguida, pediu aos presos da cela ao lado o rodo usado por eles para girar o registro que liga o chuveiro. Avisou que ia tomar banho. Menos de 15 minutos depois, dois agentes de plantão o encontraram morto com uma tira no pescoço feita com o pano que envolvia o colchonete da cela de 6m², na Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc), no complexo da Polícia Civil em Goiânia (GO). A polícia trata o caso como suicídio.

A morte, no entanto, será investigada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público. Imediatamente após a confirmação da morte de Ademar, a Procuradoria-Geral de Goiás designou dois promotores do estado para acompanhar o caso. Um deles foi para o Instituto de Medicina Legal (IML) e o outro para a Denarc . “É no mínimo estranho e deve ser objeto de cabal esclarecimento como uma pessoa tão visada encontrou tempo, espaço e instrumentos suficientes para se matar. Independentemente da causa da morte, deve haver responsabilidade criminal daqueles que detinham só como atribuição a custódia e a segurança do acusado. É bom lembrar que ele foi levado para lá por uma questão de segurança”, disse o promotor de Justiça de Luziânia, Ricardo Rangel.

Após confessar o assassinato de seis adolescentes em Luziânia, município localizado a 66km de Brasília, Ademar foi transferido para a capital goiana, por motivo de segurança, no último dia 11. A polícia temia que ele fosse morto se permanecesse na cidade onde cometeu os crimes. Dormiu três noites em uma sala da Denarc, perto do gabinete da titular, Renata Chein. Na última quarta-feira, colocaram-no em uma cela individual, ao lado de outras duas. O pedreiro de 40 anos fazia três refeições por dia. Na maior parte do tempo, dormia.

Na noite do sábado último, puxou assunto com os 10 presos de uma das celas ao lado. Ademar comentou os crimes cometidos desde dezembro do ano passado e queria saber a opinião deles sobre quanto tempo ficaria na cadeia. “A gente disse: ‘Ih, vai pegar uns 30 anos. Tu matou seis (sic)”, contou um homem de 26 anos, detido por associação ao tráfico. “Mas aqui ninguém ameaçou ele de nada”, completou. Mulheres que teriam passado pela Denarc durante a semana, no entanto, chegaram a dizer a Ademar que ele merecia morrer pelo que fez.

Pendurado

Depois do almoço de domingo, o pedreiro ligou o chuveiro e, segundo a polícia goiana, se matou. Os policiais dizem que ele amarrou uma ponta da tira no pescoço e a outra em um pedaço de ferro da pequena entrada de ar, no canto alto da cela. Pulou de um banco de concreto, de não mais que 60cm de altura. Morreu descalço, de bermuda e camiseta branca. “Quando abrimos a porta da carceragem, vimos ele pendurado, já morto. A camisa tinha sangue”, contou o agente de polícia Carlos Augusto Dias, o primeiro a ver o corpo de Ademar.

Os presos da cela vizinha se incomodaram com o barulho da água do chuveiro, que caía diretamente no chão, fazia eco e atrapalhava o cochilo depois do almoço. Foram eles que gritaram pelos agentes, após chamarem por Ademar e não terem resposta. Em pouco tempo, a delegada titular chegou ao local. “Tenho certeza absoluta disso (do suicídio) e acredito que os órgãos competentes também estão sentindo isso nas provas colhidas até aqui”, comentou Renata Chein. O resultado da perícia com a causa e os detalhes da morte serão divulgados em até 30 dias.

Renata Chein disse que Ademar tinha pedido uma coberta dias antes. “Não demos. Embora ele não falasse em suicídio, sabíamos da pressão que ele estava sofrendo e do desvio psicológico dele”, justificou. Questionada se algo poderia ter sido feito para evitar a morte, ela comentou: “Todas as cautelas para manter um custódia correta e legal foram tomadas. O que não poderíamos era negar até mesmo o colchão. Se eu deixasse ele pelado e sem colchonete, os direitos humanos acabariam comigo”.

“Tenho certeza absoluta disso (do suicídio) e acredito que os órgãos competentes também estão sentindo isso nas provas colhidas até aqui” Renata Chein, titular da Denarc

Enviado especial Ary Filgueira

 

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