Por: Renato Deslandes de Figueiredo
Os policiais federais, em especial os não reconhecidos pelo seu nível de escolaridade, são abnegados por natureza. Talvez pela sensacional capacidade humana de adaptação, que ironicamente os prejudica quando instintivamente deveriam tentar mudar o ambiente. Ou por um estilo de vida condicionado pela sua profissão, em que às vezes sua escala de valores é turbulenta, e família, saúde, muitas vezes estão abaixo da profissão. E ele não se dá conta disto.
Acostumaram-se a ser marginalizados pelo governo e sociedade, estereotipados como o mal necessário, aquilo que é dispensável, quase descartável. Numa sociedade traumatizada por uma ditadura historicamente recente, a segurança pública é polêmica por natureza, com instituições policiais desenvolvidas e ainda alicerçadas por ordenamentos jurídicos criados no regime militar.
Não é tão difícil compreender o motivo dos subsídios dos policiais federais estarem congelados em relação às outras carreiras do Executivo federal. Atualmente, a evasão de profissionais é alarmante e o concurso para a PF, antes tão exaltado, hoje está em segundo plano, tornando-se uma carreira trampolim, na qual os novos servidores já entram com as apostilas debaixo do braço. E estão certos, pois o governo federal é enfático em demonstrar que não valoriza o policial federal.
Policiais federais que há 10 anos ganhavam igual a um auditor da Receita Federal ou Banco Central, hoje ganham a metade. Se antes ganhavam o dobro do subsídio de um servidor da Abin, atualmente, depois de 30 anos de serviço, não ganharão sequer o seu salário inicial. Mas como parar? Como perceber? Como deixar de exercer uma função 24 horas por dia, quando armado, numa padaria ao final de semana, ainda estará condicionado à obrigação de agir em prol da sociedade, inerente à sua natureza que, infelizmente, é policial.
Seguindo a rotina anual, hoje, meados de agosto, mês do desgosto, as verbas da Coordenação de Orçamento e Finanças (COF), que gere os recursos financeiros da PF, estão zeradas. Ou seja, policiais viajam sem receber as diárias. Operações estão suspensas por faltas de recursos. É fácil obter uma medida judicial para obrigar o pagamento antecipado das diárias, mas onde está a origem do problema? A culpa é dos servidores dos Neof´s? Lógico que não. Até que ponto sempre somos manipulados, sempre somos jogados uns contra os outros? A teoria do caos sempre beneficia quem se aproveita do sistema.
Na página da Presidência da República, é fácil perceber a aprovação de créditos suplementares para o Ministério do Turismo. E quem não leu o marketing governamental, bradando aos céus a arrecadação recorde da Receita Federal. O que está errado? A quem interessa uma Polícia Federal desvalorizada? Qual a melhor maneira de controlar uma instituição que combate a corrupção? Será a velha técnica de adestrar um animal limitando sua ração?
Renato Deslandes de Figueiredo é Presidente do SINPEF/MG






Comments are closed.