Por Carlos Arouck
Gostaria de fazer algumas considerações a respeito da greve e da situação atual por que a PF passa.
Nós precisamos acabar com está sombra dentro do nosso movimento, que é de todos, que eu acho que é o mais importante desde 1992, quando houve a primeira greve dentro Departamento de Polícia Federal.
A sociedade brasileira está começando a perceber que existe uma divisão na PF que enfraquece e não traz ganhos para ninguém. Essa divisão entre EPAs e delegados, baseada no lema “salário e hierarquia”, deixando de lado valores com competência, dedicação e liderança, não leva a lugar algum. Leva à insatisfação, nossa e da população. Insistir que um agente especial em fim de carreira ganhe menos que um delegado inicial para criar um divisor de águas chega ser ridículo. Somos todos policiais, não classe inferior e classe superior. Poupemo-nos de tamanha mesquinharia. Somos DPF.
Falta hoje um sentimento de união, que pouco a pouco vai minar a Instituição por inteiro. Essa idéia tão propagada de trabalhar em equipe, cada um buscando desempenhar o melhor possível suas competências, vai sendo substituída pela desconfiança no parceiro, no chefe, no departamento… O policial motivado cede lugar ao policial amargo, que começa a se arrepender da profissão, antes abraçada na certeza de pertencer a um quadro onde reinam os bons.
É incrível como tem gente que não aprende. A História mostra que os radicalismos provocam reações contrárias, num ciclo vicioso de auto-alimentação Alguns deles, mesmo entre meus colegas, me dão a impressão de colocar seus pensamentos políticos acima da própria carreira, da mesma forma que os delegados mais radicais. Felizmente também lhes falta inteligência, pois afastam seus aliados quando alguém lembra o conselho do grande Caxias: “Unamo-nos e marchemos ombro a ombro e não peito a peito, em defesa da Pátria que é nossa mãe comum” nesse caso, a POLÍCIA FEDERAL. Esses radicais, de ambos os lados, é melhor que sejam ignorados, pois causam a desunião, e a desunião leva à ruína.
Não podemos deixar a ADPF pautar o Departamento de Polícia Federal e nem a Fenapef. Todas as questões de luta por melhores condições de trabalho para os policiais deveriam partir da DIREÇAO-GERAL, que representa todas as categorias dentro do DPF, numa só voz, com as entidades representativas de classe apoiando. Com isso a sociedade brasileira sairia ganhando e deixaríamos de ou ouvir ou ler frases como essas:
“A trava salarial continuará mantida e um EPA especial ganhará menos do que um delegado inicial. Essa foi uma exigência dos delegados inteligentemente, pois assim sempre que os EPAs brigarem por reajuste, na verdade estarão brigando tb pelos delegados, pois com a trava automaticamente qualquer reajuste para os EPAs os benefícios se refletem nos delegados. Como já dito a reestruturação não vingou e mais uma vez os delegados saíram vitoriosos. A trava continua firme e forte. Parabéns aos delegados pela postura na negociação.”
Esse tipo de pensamento é uma aberração. Não existe nas corporações policiais mais bem estruturadas do planeta. Primeiro porque na maioria o cargo é único: todos começam juntos e vão galgando patamares maiores por merecimento. Segundo porque praticamente não existe nas organizações policiais do mundo inteiro entraves que impeçam um agente em final de carreira de ser mais bem remunerado que um delegado em início. Na Police Nationale francesa, essa é a prática, considerada não mais do que justa.
Quando trocamos experiências com colegas policiais de outras nações, eles compreendem de imediato o que fazem os EPAS, mas não conseguem entender as explicações de um delegado sobre a sua função. Simplesmente porque essa divisão não existe para eles, e é considerada desnecessária, segundo palavras de muitos deles. O que alegam é que existe um Ministério Público que atua na área de atribuição dos delegados. Com tamanha saia justa, em geral somente resta aos delegados resumir sua atuação como ‘eu sou o chefe.’
O que deveria ser bom para os delegados, deveria também ser bom para os EPAs. Ao invés de se apresentar à sociedade uma causa comum de todos, perde-se tempo analisando propostas que só beneficiam um determinado segmento em detrimento de outros. Fica a idéia de que enquanto os EPAS vão para as ruas, buscam se mobilizar e explicar para a população os motivos de suas reivindicações, os delegados permanecem intocáveis em seus redutos, na certeza de que vão colher os frutos do movimento, mesmo optando por permanecerem fora da greve. Talvez daí nasça a sensação dos EPAS de que tudo que fazem resulta em elogios, promoções e enaltecimentos somente para os delegados. Isso não é uma crítica infundada a uma categoria, mas a realidade do dia-a-dia, que precisa ser exposta como verdade reinante em todo o DPF.
Se essa questão for debatida em uma roda de delegados, vão dizer: “que absurdo, isso não é verdade!” Se perguntarmos para qualquer EPA, ele vai retrucar: “é exatamente assim, os delegados se apropriam do nosso trabalho”.
E a carreira jurídica, é boa para a Polícia e para a sociedade? Ou só para uma categoria? Na minha visão, é maléfica, um passo para transformar a Polícia em um Juizado de Instrução. Vai contra o principal papel policial, que é investigar e descobrir a autoria e a materialidade do crime, o que interessa para a sociedade. E quanto custa um inquérito para os contribuintes? Tudo isso vamos ver na próxima análise, de forma simples mas esclarecedora.
Conto com sua reflexão.
Que Deus ilumine todos nós.
E a Polícia Federal proteja todos vocês.
Carlos Henrique Arouck – Agente de Polícia Federal aposentado
Graduado em Direito e Administração de Empresas
Especialista em Segurança de Dignitários e de Grandes Eventos






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