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mar 22

EMPRESÁRIOS TEMEM EFEITOS NEGATIVOS DA INTERVENÇÃO – Correio Braziliense

  • 22 de março de 2010
  • Notícias

Para o setor produtivo, se o DF tiver um interventor, contratos do governo serão suspensos, resultando na extinção de 250 mil empregos

Diego Amorim

Representantes do setor produtivo do Distrito Federal não querem ouvir falar na possibilidade de intervenção(1) no governo local. Empresários fazem previsões desastrosas para a economia, caso um interventor assuma o comando da capital do país. Acreditam que contratos e licitações do GDF seriam imediatamente suspensos, o que resultaria na extinção de cerca de 250 mil empregos diretos e indiretos. As demissões afetariam principalmente os segmentos da construção civil e de informática.

Para o setor produtivo, a interferência externa na cidade não teria condições de reestuturar os poderes locais abalados com a crise política . “O que está ruim ficaria ainda pior”, diz Danielle Moreira, presidente da Associação Comercial do DF (ACDF). “Ouço algumas pessoas falarem da intervenção como algo bom. Isso é ignorância, falta de informação”, emenda a presidente da Associação dos Jovens Empresários do DF (AJE-DF), Tatiana Moura.

O estouro da Operação Caixa Pandora — em 27 de novembro — foi suficiente para atingir a economia da capital. Danielle, da ACDF, conta que pelo menos duas multinacionais — dos ramos farmacêutico e alimentício — desistiram de instalar indústrias no DF, embora as negociações estivessem avançadas. “Temos vários investidores estrangeiros de olho em Brasília. A intervenção mancharia ainda mais nossa imagem lá fora”, comenta. “Até a Copa (em 2014) deixaríamos de sediar. Não haveria tempo hábil para as obras”, acredita.

Danielle diz já ter sido muito criticada por ser contrária à intervenção. Acusam-na de defender empresários investigados por envolvimento na suposta rede de corrupção e pagamento de propina do GDF para os aliados. “As pessoas não têm noção do que falam, não conhecem o impacto de uma intervenção. Estou protegendo os pequenos e microempresários, que seriam os primeiros a sofrer”, justifica. A crise política por si só, segundo ela, teve o poder de amedrontar consumidores e frear o comércio neste início de ano. “Todos nós queremos punição sem dó, mas a solução para a cidade se reerguer não é a intervenção.”

O presidente da Federação das Indústrias do DF (Fibra), Antônio Rocha, lembra que o governo local é o cliente mais importante do setor. Com a intervenção, prevê ele, contratos seriam suspensos, o que afetaria o caixa das empresas, a ponto de quebrar as menos estruturadas. “A economia iria parar. Fico preocupado com os empregos que seriam perdidos. Até o interventor tomar conhecimento da situação, ele paralisaria as obras, por exemplo, e forçaria as demissões”, discorre.

Na avaliação do presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do DF (Fecomércio), senador Adelmir Santana (DEM-DF), os reflexos da intervenção dependeriam do viés do interventor. “O nome seria uma escolha pessoal do presidente. Não há critérios. E se o interventor tiver um viés político? Se ele optar pelo discurso de que está tudo errado, de que todo mundo é ladrão? Não é por aí, a cidade iria parar de vez”, preocupa-se.

Descontaminação

A Fecomércio se posicionou contrariamente à intervenção desde o início da crise no DF. Santana classifica a alternativa como “extremamente dura” e defende que é preciso “juízo” nessa hora. “Não pode prevalecer o espírito de porco. Se está tudo contaminado, vamos descontaminar, mas a intervenção não é a saída. Com o interventor, virão muitos ‘interventorzinhos’ disso e daquilo. A grande intervenção será em outubro, nas eleições”, sustenta.

O diretor da Federação dos Empreendedores do Brasil (Fenae) no DF, Judson Carlos de Oliveira, diz não ter dúvidas de que a intervenção implicaria desemprego. “Resultaria em menos emprego, menos consumo e, certamente, afetaria mais os micro e pequenos empresários”, prevê. Para ele, existe interesse político no discurso de quem defende a intervenção. “Isso é casuísmo puro. O que vai mudar a situação que estamos vivendo não é intervenção alguma.”

Para Tatiana Moura, da AJE-DF, a posse de um interventor provocaria um caos na cidade. “Seria uma ‘bola de neve’ de problemas. A intervenção pararia a cidade, pararia tudo”, acredita. “Temos que confiar, as coisas estão mudando. As pessoas não têm noção do impacto de uma intervenção. Vamos completar 50 anos em abril, não precisamos e não temos por que passar por isso.”

1 – Trâmite

O pedido de intervenção federal no DF foi protocolado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em 11 de fevereiro. O relator do processo é o próprio presidente da Corte, Gilmar Mendes. Ele deverá produzir um relatório, que será apreciado pelos demais ministros do STF. Não há prazo nem para o parecer de Mendes nem para a votação no plenário do tribunal. Se os magistrados optarem pela intervenção, caberá ao presidente da República nomear o interventor.

O que diz a Constituição Federal

Artigo 34: a União não intervirá nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para:

Manter a integridade nacional

Repelir invasão estrangeira ou de uma unidade da Federação em outra

Acabar com grave comprometimento da ordem pública

Garantir o livre exercício de qualquer dos Poderes nas unidades da Federação

Reorganizar as finanças da unidade da Federação que suspender o pagamento de dívida por mais de dois anos consecutivos ou que deixar de entregar aos municípios receitas tributárias fixadas na Constituição.

Prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial Assegurar a observância dos princípios constitucionais

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