Diariamente acompanhamos, atônitos, as notícias que envolvem os famosos “casos de polícia”. Situações atípicas e sempre ruins. E na maioria das vezes, o cidadão acaba em desvantagem. Para os mais religiosos, representa a eterna luta entre o bem e o mal, e para os céticos, é falta de competência governamental. Um fenômeno vinculado à ausência de vontade política.
O povo tem à disposição uma estrutura com detalhes objetivos, que confirmados pela estatística, nunca param de crescer. O aumento da criminalidade, por exemplo, é o conseqüente resultado e nunca a causa. Porém, alguns querem deixar transparecer que a criminalidade é causa e assim justificam os resultados deprimentes da segurança pública. Mas hoje, a população já percebe que segurança pública não existe. Pois será que alguém está seguro?
O problema vai muito além dos boletins de ocorrência e faz parte do sistema, como resultado da ausência da máquina pública competente. Faltam empregos, faltam médicos e os que dispomos estão insatisfeitos com a estrutura pública. Em contrapartida, sobram professores desmotivados e policiais despreparados, além da carência de equipamentos modernos e adequados.
Nesse quadro, o resultado não poderia ser diferente. Assim, o crime vai galgando posições nessa disputa desleal, em que a população, ordeira, sempre perde e o cidadão de bem não consegue, sequer, ser ouvido em suas reclamações.
Insisto que nem tudo é caso de polícia que, infelizmente, só consegue atuar de forma reativa, ou seja, depois que o crime ocorreu. O que deve acontecer é o trabalho inteligente que anteceda o fato delituoso, de forma a desmotivar os criminosos.
Utilizaremos a Polícia Militar como exemplo, já que deveria esta, ser a responsável pelo patrulhamento ostensivo, necessário e fundamental para inibir os meliantes a praticarem os crimes. O policial não tem culpa, mas a estrutura não facilita a vida do cidadão, pois qualquer um constata que falta polícia na rua.
Já tomamos conhecimento de inúmeras situações desagradáveis que poderiam ter sido evitadas se o sistema funcionasse de forma diferenciada. Estupros, furtos, roubos, homicídios e seqüestros aumentam a cada dia, mas a polícia não consegue nem sequer acompanhar os números, mantendo as, já desastrosas, estatísticas anteriores, pois a cada ano o número é mais negativo.
A população aumenta – o crime aumenta, o desemprego aumenta – o crime aumenta, a fila no hospital aumenta – o crime aumenta, e assim por diante. Quando a estrutura pública proporcionar a inversão desses números, certamente conseguiremos dormir
Utilizando agora a polícia civil do Distrito Federal como exemplo, o efetivo de policiais é o mesmo de mais de10 anos atrás. Os concursos mal conseguem repor as vagas deixadas pelos aposentados, pelos demitidos e pelos falecidos. E se com o aumento da população a criminalidade aumenta, e o efetivo policial permanece o mesmo, o resultado não poderia ser diferente.
Nesses exemplos citados, o policial também é vítima, pois não consegue receber do Governo a estrutura para trabalhar de forma adequada para a sociedade. Então aparece novamente a famosa bola de neve: falta estrutura e sobra estresse e desmotivação. E é assim que o bom policial acaba sendo um herói.
É certo que, assim como em todas as profissões, existem maus trabalhadores que sujam o bom nome da instituição. E no caso da polícia, as corregedorias não param de atuar, tentando sempre separar o joio do trigo. Nesse caso, o corporativismo deve dar lugar à seriedade e a incessante busca pelo rigor da lei.
Traremos aos leitores o último grande exemplo que vem confirmar o caos implantado no sistema de segurança pública: o aniversário da cidade. Na Explanada dos Ministérios, ponto de encontro tradicional para os eventos culturais da cidade, aconteceu uma das maiores festas da história do DF e segundo as informações do Governo reuniu, aproximadamente, 1 milhão e quinhentas mil pessoas.
Os otimistas até tentaram mostrar o lado bom do momento, porém infelizmente a violência tomou o lugar da paz e o saldo mais uma vez foi favorável para a insegurança, pois para garantir a tranqüilidade do evento, foram escalados cerca de três mil policiais. Um quantitativo razoável, não fosse para tomar conta de 1.500.000 populares.
A matemática ainda é uma ciência exata, então quer dizer que cada policial deveria ser responsável pela segurança de nada menos que 500 pessoas e nessa progressão aritmética poderíamos contar com 02 policiais para conter 1000 pessoas e assim por diante. Não precisa ser muito crítico para perceber que assim não dá e a população deseja saber qual foi o presente de aniversário ofertado aos presentes.
Sabemos que o investimento foi alto, talvez milhões. Mas que infelizmente não trouxeram alegria às famílias dos esfaqueados, dos esmurrados, dos que foram furtados e principalmente dos que morreram em decorrência da triste realidade daquele infeliz momento festivo.
O objetivo não é radicalizar, mas não é possível conceber que um evento dessa natureza fosse planejado sem a garantia de que os participantes estariam seguros. Melhor então, seria ter destinado os muitos reais gastos, na construção de um posto de saúde, na reforma de algumas escolas, no aumento de salário dos professores, que ainda estão em greve esperando o cumprimento das promessas, ou em mais um monte de outras coisas que não são feitas por falta de recursos.
Ao que tudo indica, vários esfaqueamentos foram, inclusive, efetuados por uma mesma pessoa até que a festa acabasse. Nesse momento de aglutinação da população, numa festa popular, em que obviamente houve incentivo do governo, pois até as caríssimas passagens de ônibus tiveram seus preços reduzidos, seria imperioso que houvesse uma melhor distribuição do efetivo policial, deslocando um número muito superior do que foi disponibilizado.
Já que a festa seria realizada a qualquer preço, então a polícia deveria também ser incentivada a comparecer em massa, para tentar minorar os problemas da superlotação.
É claro que não seria apenas aumentar o número de policiais para impedir a violenta barbaridade, mas poderíamos ter visto campanhas preventivas e educativas nos jornais, rádio e TV, no lugar da tradicional propaganda governamental, mostrando apenas as realizações já finalizadas. Não adianta mostrar obras concluídas se não está garantido o bem maior do ser humano: A sua vida.
(*) CLÁUDIO AVELAR é Presidente do Sindicato dos Policiais Federais no DF, bacharel em Direito e Administração, especialista
Foto: Divulgação






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