
Freqüentemente conhecemos estórias que envolvem crianças molestadas por pessoas em que os pais confiavam. A relação perigosa muitas vezes dura anos e somente acaba quando os sinais, que os filhos transmitem, não mais podem ser disfarçados pelo excesso de confiança, ou pelo silêncio motivado pelo medo.
Pouco tempo atrás, soubemos de mais um caso que envolveu uma família que se encaixa nesse perfil. Uma criança amedrontada por conta de uma babá com desvios sexuais de conduta ou coisa parecida, era molestada e obrigada a praticar atos de desatino sexual.
Na maioria das vezes, a criança não sabendo o que na verdade está acontecendo, até concorda. Porém com o passar do tempo, quando já não mais consegue dar continuidade aos atos libidinosos, por desconforto ou medo, acaba sendo obrigada a permitir contra sua vontade e medo das ameaças passa a motivar o seu silêncio.
Realmente a situação é grave e nem sempre os pais conseguem meios para evitar esse pernicioso mal social. As dificuldades econômicas fazem com que pai e mãe precisem trabalhar fora para conseguirem o sustento da família e a falta de informação dificulta a prevenção para os perigos dentro do próprio lar.
Esse tipo de violência doméstica ocorre pela impotência dos adultos, em primeiro lugar por não conhecerem os meios para protegerem seus filhos e em segundo lugar por absoluta falta de opção, pois precisam submeter suas crianças a estranhos que os substituirão nas tarefas domésticas.
Tal drama infelizmente passa por desvios psicológicos dos abusadores, que se valem da função ou emprego para saciar sua vontade pedófila a qualquer preço. Somente quando os pais começam a perceber modificações na rotina dos filhos é que passam a fiscalizar melhor, procurando pistas sobre os malfeitores. Nesse momento é que chega a decepção acompanhada da angústia pela descoberta de que sua ausência auxiliou o criminoso.
É certo de que na maioria desses casos, as vítimas são crianças que pela pouca idade não conseguem impedir e nem tampouco denunciar o criminoso. Ficam sujeitas à própria sorte e às mãos de Deus a quem recaem todas as preces para que coisas desse tipo não ocorram ou que sejam banidas para bem longe de nossas casas.
Já que realmente se percebe a impotência a que os pais são submetidos ante os perigos que passam as crianças, esperamos que o poder público participe mais ativamente, com campanhas educativas e com o acesso facilitado às informações quanto aos antecedentes criminais dos empregados domésticos.
Não estamos aqui promovendo uma campanha de reação contra as babás ou qualquer outro tipo de trabalhador residencial, mas procuramos incessantemente uma solução para que cessem os perigos para nossa juventude, tão refém de ajuda e com poucas chances de resistência.
Ofereço como exemplo uma situação que envolveu uma conhecida. Certo dia, uma amiga, professora e psicóloga, pessoa bem informada, mas que integra o grupo da melhor idade, solicitou minha ajuda, pois acabara de contratar empregada nova, que apesar de deixar boa impressão, não possuía qualquer tipo de referência.
Como naquele momento eu estava fora de Brasília, sugeri que se dirigisse à Delegacia de Polícia do bairro em que reside e solicitasse ao Policial de plantão informações sobre a pessoa e que registrasse, naquela oportunidade, a situação, de forma preventiva, para que em caso de algum infortúnio, as autoridades públicas conhecessem o fato e tivessem mais facilidade para uma eventual solução.
Fiquei surpreso quando tive notícia que o policial, além de não fornecer a informação, por conta de algum entrave de ordem burocrática, não promovera o registro do empregado suspeito informando que não poderia fazê-lo por não ser assunto de polícia, já que nenhum crime havia acontecido.
Apesar de decepcionado com o sistema que não facilita a segurança do cidadão, adotamos outras medidas para que, dentro do possível essa amiga não fosse alvo fácil. Felizmente nada aconteceu e a pessoa contratada, até hoje presta serviços de forma eficiente.
Acontece que somente sugeri a minha amiga que procurasse a Polícia, por haver em certa oportunidade, assistido a uma entrevista sobre um crime cruel, envolvendo patrão e empregado, em que o repórter perguntara a um Delegado o que poderia ser feito para o cidadão se prevenir. Ouvi como resposta que todo patrão poderia consultar os antecedentes dos empregados domésticos, até pelo fato de haver a possibilidade de já haver sido envolvido em ocorrências anteriores, além de que o registro do empregado poderia evitar a ocorrência de novos crimes.
Com esse exemplo próximo, que não é acompanhado de nenhuma crítica ao policial por não atender às nossas expectativas particulares, de antemão fica a sugestão de que os poderes públicos participem de forma mais ativa do sistema de prevenção. Seria esse então, um modelo com baixo custo e pouca estrutura, para oferecer ao cidadão melhor acesso à informação que já deveria ser pública.
Dessa circunstância viajamos para tantas outras que poderiam ter sido evitadas, caso o criminoso em potencial ficasse pelo menos receoso em cravar suas garras na vítima, por saber que seu nome já seria conhecido da polícia e que se viesse a praticar qualquer tipo de ato delituoso contra aquela família, poderia ser descoberto com facilidade e colocado atrás das grades.
Acredito com sinceridade que as autoridades devem sempre participar preventivamente do sistema de orientação familiar, mas não se pode deixar de registrar que os pais, em hipótese alguma, podem também submeter suas crianças a desconhecidos, deixando-os à própria sorte. Se não puderem transformar suas casa em monitoração do tipo Big Brother TV, que sempre prestem atenção ao comportamento dos menores e que tentem aprender rapidamente a linguagem dos sinais infantis.
(*) CLÁUDIO AVELAR é Presidente do Sindicato dos Policiais Federais no DF, bacharel em Direito e Administração, especialista em Direito Público.






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