Fonte: O Globo
Companheiros concordam com Lula sobre falhas no PT, mas dizem que maior problema é a burocracia da sigla
-Brasília- Integrantes do PT concordaram ontem com críticas feitas ao partido pelo ex-presidente Lula em entrevista ao jornal espanhol “El País” divulgada anteontem, mas ressaltaram não haver corrupção sistêmica na sigla, e, sim, casos isolados. A maior preocupação na seara petista, dizem, é com a burocratização da legenda e com o afastamentodos movimentos sociais a partir da chegada ao governo federal. Já integrantes da oposição afirmaram que o mea-culpa de Lula vem tarde, já que ele teria responsabilidade nesse processo.
Na entrevista, Lula afirmou que, com o crescimento do PT e sua chegada ao poder, foram surgindo “defeitos” no partido, como, segundo ele, valorização demasiada do Parlamento, de cargos públicos e o surgimento da corrupção. Mesmo com esse reconhecimento, Lula disse ao jornal espanhol que dirigentes do partido foram previamente condenados, por meios de comunicação, no julgamento do mensalão, inclusive à “prisão perpétua”.
Em Brasília, perguntado sobre a entrevista do ex-presidente, o senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que esse é o preço que o partido paga depois de dez anos no comando do país:
— O presidente Lula tem razão, e o melhor que o PT tem de fazer para ter vida longa é fazer as correções, olhar as cicatrizes para evitar novas.
CRÍTICAS ÀS ELEIÇÕES INTERNAS DO PT
Viana aproveitou para criticar o processo de eleições internas do partido, marcado para o dia 11 de novembro, no qual já é dada como certa a reeleição de Rui Falcão como presidente nacional:
— O presidente Lula tem razão ao propor renovação. Não podemos seguir sendo uma federação de tendências. As eleições (internas) já estão definidas antes de acontecer. Há pouco espaço para oxigenação.
Apesar de pregar a renovação do PT e a abertura de espaço para novas gerações, Lula apoia a reeleição de Falcão, que é da corrente interna Novo Rumo, mas apoiado pela ala majoritária, a Construindo um Novo Brasil.
Ex-presidente do partido, o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP) aponta outro problema do “PT governo”: a burocratização:
— Eu não vejo processo de corrupção sistêmica no PT, pode haver casos isolados. O que discutimos muito é a burocratização, a adaptação do PT a um processo de participação institucional, que, muitas vezes, leva o partido a olhar mais para a máquina do Estado do que para os movimentos sociais.
Mas, segundo Berzoini, na busca de renovação de seus quadros, o PT definiu, em seu último Congresso, que nenhum integrante do partido poderá ter mais do que três mandatos de deputado e dois de senador consecutivos. A contagem
desse tempo não é retroativa. Ou seja, a regra valerá para os novos eleitos.
O líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (CE), minimizou as declarações de Lula, embora concorde com a suposta necessidade de renovação. Para ele, o problema da corrupção se resolve com reforma política:
Os partidos são fruto da sociedade. Esse (corrupção) não é o debate prioritário. O PT tem que ser reformulado, incluindo novas lideranças nos comandos estaduais. Não é por causa de cargos públicosque temos corrupção. Ter ou não cargos é da vida, da sociedade. O problema é não fazer a reforma política.
Do lado da oposição, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirma que a autocrítica de Lula vem tarde:
É um mea-culpa tardio, porque o presidente Lula adotou uma postura de conivência e complacência com a corrupção em seu governo. Ele foi um artífice desse sistema de loteamento de cargos e aparelhamento do Estado.
Já o ex-aliado do PT Rodrigo Rollemberg (DF), líder do PSB no Senado, considerou a avaliação de Lula “corajosa” e afirmou que, no processo político, os partidos precisam se reciclar:
— Quando um partido fica muito tempo no poder, tende a se afastar de suas raízes. A alternância de poder obriga os partidos a voltar às suas bases e se renovar.
O PSB deixou o governo Dilma e deve lançar seu presidente, o governador Eduardo Campos (PE), ao Planalto. Ontem, ao comentar a entrevista de Lula, Campos disse que é preciso ter humildade para aprender com os erros dos outros e dotar de “fio terra” partidos que, como o PSB, encontram-se em crescimento, para que não se contaminem com as mesmas práticas que Lula apontou no PT.






Comments are closed.