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nov 17

PODERES EM CONFLITO: GUERRA INTERNA AMEAÇA A CREDIBILIDADE DA PF – O Globo

  • 17 de novembro de 2008
  • Notícias

OPERAÇÃO TERREMOTO NA PF- Lula já acompanha guerra entre grupos de delegados que abala prestígio da instituição


A crise interna na Polícia Federal, que veio à tona com a apuração de irregularidades na Operação Satiagraha, já assumiu contornos tão graves que ameaça desmoralizar a instituição e jogar por terra o prestígio obtido pela PF nos últimos anos, após uma série de bem-sucedidas operações de combate à corrupção. Segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já foi informado de que a PF passa por um processo de “balcanização”, uma guerra entre grupos de delegados sem territórios definidos que pode provocar mais desgastes para o governo.


– Esta é uma crise triste. A Polícia Federal está perdendo estrutura. Era necessário corrigir alguns erros, mas o que está havendo é a destruição da PF. Está havendo um processo de balcanização. Agora, parece que ninguém confia mais em ninguém lá dentro. Isso vai desmoralizar. Ninguém respeita mais a PF – afirmou um dos mais importantes interlocutores do presidente Lula, explicando que, diante da falta de comando, cada delegado agora se sente dono de seu próprio balcão.


Pelas análises levadas a Lula, a PF perde rapidamente a credibilidade conquistada ao longo da série de operações de combate à corrupção. As brigas internas, que nunca deixaram de existir, ficaram mais intensas com a chegada do delegado Luiz Fernando Corrêa ao comando, em agosto do ano passado, em substituição ao delegado Paulo Lacerda, que foi deslocado para o comando da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).


Lula já foi aconselhado por pessoas próximas a demitir tanto Corrêa quando Lacerda, este último afastado do cargo na Abin desde o início do escândalo das gravações clandestinas na Satiagraha, que tiveram a participação de arapongas da Abin. Para os conselheiros do presidente, a dupla demissão seria a única forma de pôr um fim à forte crise na PF e à queda-de-braço permanente entre a PF e a Abin.




Descentralização é alvo de críticas

O afastamento do diretor-executivo Romero Menezes, o segundo homem na hierarquia da PF, sob acusação de corrupção, e a abertura de inquérito criminal contra o delegado Protógenes Queiroz, ex-coordenador da Operação Satiagraha, são apenas a parte mais visível das refregas que agitam o Máscara Negra, apelido do edifício-sede da PF. Os grupos internos medem forças em torno do afastamento em massa de todos diretores, superintendentes e chefes setoriais que se seguiu à posse de Corrêa. Há controvérsias acaloradas sobre a descentralização das grandes operações de Brasília para as superintendências nos estados.

– A descentralização foi um erro do Luiz Fernando. Grandes operações têm que ser tocadas por Brasília, não pelos estados – afirma um dos ex-padrinhos políticos do diretor.


Somam-se a isso rixas pessoais que agora não encontram mais anteparo na direção da PF. Na gestão Lacerda, entre 2003 e 2007, as grandes operações de combate à corrupção e ao crime organizado eram comandadas pelas diretorias executiva e de inteligência, em Brasília. Mas Corrêa esvaziou as diretorias em Brasília e transferiu a responsabilidade para as superintendências. Segundo observadores da crise, com essa mudança, os escândalos são pulverizados nos estados. Isso dá menos dores de cabeça ao governo. Mas, em contrapartida, é um terreno fértil para a competição interna.


A Operação Toque de Midas, que investiga o empresário Eike Batista, seria um exemplo dos equívocos da descentralização. Parte do conteúdo da operação, conduzida pela Superintendência do Amapá, vazou antes de a Justiça deliberar sobre pedidos de busca e prisão do empresário. O assunto parecia condenado ao ostracismo. Mas, não demorou muito, os investigadores voltaram a carga. O resultado foi um choque. O ex-diretor Romero Menezes foi preso sob acusação de corrupção, por supostamente defender interesses do empresário.

– Nunca vi isso – disse o ex-diretor-executivo da PF Zulmar Pimentel, um dos símbolos do combate travado entre Corrêa e delegados antigos.


Ex-candidato à sucessão de Paulo Lacerda, Zulmar foi deslocado da cúpula da instituição para uma humilde sala da Interpol. É, hoje, só mais um policial da equipe do chefe da Interpol, o jovem delegado Jorge Pontes, que ascendeu aos principais postos da instituição por suas mãos. Getúlio Bezerra, ex-diretor de Combate ao Crime Organizado, é outro que está no ostracismo: cuida de convênios com países de língua portuguesa.


– Considero um grande erro desperdiçar a experiência neste contexto em que a sabedoria era extremamente necessária – afirma o presidente do Sindicato dos Delegados da PF no Distrito Federal, Joel Mazzo.


As diferenças entre Corrêa e os delegados mais antigos ficaram ainda mais explícitas no início desta semana. Numa solenidade no Rio, o ministro da Justiça, Tarso Genro, anunciou que o futuro corregedor da PF será o delegado Valdinho Jacinto Caetano, superintendente no estado.

O atual corregedor, José Ivan Guimarães Lobato, ficou sabendo pelo rádio que seria substituído. O corregedor tem mandato de três anos, mas pode ser reconduzido ao cargo. Surpreso com a demissão, Lobato ligou para um colega para conferir a informação:

– Fui demitido? Já tem um novo corregedor? Como assim?

Pela lei, Lobato permanece no cargo até 5 de dezembro. Corrêa teria errado na dose ainda ao mandar abrir inquérito criminal contra Protógenes Queiroz dois dias após a prisão do banqueiro Daniel Dantas. A medida, aparentemente disciplinadora, rachou a instituição. Boa parte dos delegados, mais próximos à direção, concordou com a ameaça que paira sobre Protógenes. Para eles, o delegado, de fato, cometeu falhas imperdoáveis na investigação. Mas a maioria dos delegados tem se manifestado a favor de Protógenes, sobretudo depois das buscas de documentos na casa dele.



– As prerrogativas dos delegados foram atingidas. Agora, quem é que vai querer se empenhar numa investigação para, depois, correr o risco de ser punido? – questiona Mazzo.

Corrêa: “A PF nunca esteve tão unida”


Para tornar ainda o cenário mais nebuloso, Corrêa, que já criticara a espetacularização das operações na época de Lacerda, manifestou diversas vezes desagrado com a participação de agentes da Abin na Satiagraha. A partir daí, as relações entre Corrêa e Lacerda, que já não eram boas, azedaram. Aliados de Lacerda entendem ainda que, na guerra suja, a PF estaria demorando a concluir o inquérito sobre o suposto grampo do telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, para inviabilizar a volta do delegado à chefia da Abin.

– O resultado dessa crise depende de quem fica e de quem sai. Do jeito que está, não dá – disse um importante interlocutor de Lula.


Corrêa nega crise na PF:


– A PF nunca esteve tão unida. Não há grupos. O que pode haver é o descontentamento de uma ou outra pessoa. Mas isso de forma alguma reflete a existência de grupo.

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