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abr 16

SEGURANÇA PARA A VIDA Por Luís Cláudio Avelar – Tribuna do Brasil

  • 16 de abril de 2009
  • Notícias

Diariamente convivemos com uma enorme quantidade de ocorrências deprimentes que expõem a realidade dura, dos grandes centros principalmente. Os índices de registro de crimes não param de crescer. Apesar dos paliativos utilizados pelos políticos, com o intuito de mascarar a realidade.

Segurança pública ainda é apenas um sonho distante e sinceramente espero que as autoridades acordem antes que seja tarde demais. Mesmo que, oportunistas insistam em fabricar números positivos de desempenho nos quartéis e delegacias, o cotidiano duro e a rotina violenta dos atendimentos mostram um triste quadro que não está sendo adequadamente desenhado.Exemplos podem ser facilmente demonstrados e vamos trazer ao leitor uma cômica situação, porém iniciada a partir de um quadro trágico. Comerciantes estabelecidos no plano piloto colocaram várias faixas pela quadra com dizeres um tanto intrigantes, pois já que não conseguiam que a polícia impedisse os constantes ataques, pediam aos ladrões que mudassem de quadra, inclusive se mostrando como vítimas e apelando para o sentimento do assaltante.

Comercial 203/204 sul – “Senhor ladrão! Por favor, mude de quadra” era a faixa que mais chamava a atenção, além de várias que demonstravam diretamente que lojas haviam sido visitadas por ladrões. Os comerciantes colocavam cartazes informando o tipo de crime e a quantidade de vezes que foram vítimas de criminosos. Esse fato inédito só aconteceu por não conseguirem encontrar outra solução. Coincidência ou não, somente depois da demonstração satírica da insatisfação é que receberam a visita de representantes do GDF e a promessa de que viaturas policiais passariam pelo local e que um novo posto comunitário iria ser inaugurado nas proximidades. Será que isso basta para impedir que ladrões sejam afastados do patrimônio alheio?

Estou cada dia mais preocupado com as soluções políticas apresentadas para sérios problemas. Aliás, será que realmente essas pessoas acreditam que um posto desses resolve o problema da criminalidade, apesar de somente estarem à disposição um ou dois policiais sem carro e sem estrutura? Se contassem com um efetivo fixo de no mínimo dez policiais para atendimento, além do pessoal de apoio, poderia funcionar, mas assim como está sendo feito é jogar fora o dinheiro do contribuinte. Não adiantam apenas boas intenções, deve haver tecnicidade para que decisão seja adequada. Apesar dos milhões que se gasta com segurança, a violência continua aumentando de forma acelerada. Será que estão esperando que Brasília sofra da mesma forma que o Rio de Janeiro, onde o criminoso enfrenta a polícia diariamente e todo dia são hospitalizadas e enterradas vítimas de “bala perdida” e guerra de quadrilhas?

Roubo, furto, homicídio, sequestro relâmpago, estupro e extorsão; esses são os campeões no ranking da criminalidade. Problemas enormes para o cidadão, que não consegue nem de perto encontrar uma solução. Por isso, é fundamental que haja maior engajamento entre os entes estatais e a sociedade civil, pois essa representa quem sofre e quem não tem mais tempo para esperar as decisões dos políticos que apenas estão a esperar novamente o seu voto para que, lhes enchendo de promessas, continuem no poder e nada fazendo de concreto para resolver o problema.

Polícia na rua é a grande carência desse sistema. Os administradores policiais dizem que o efetivo é pequeno. Podemos até concordar, mas insisto que se os números não são favoráveis, deve-se mudar a forma de trabalhar para minimizar as dificuldades ou então se render ao crime, por simples ineficiência. Já que lugar de Policial é na rua, por que existem inúmeros policiais realizando tarefas administrativas. Pura falta de gestão ou falta de interesse? Aonde estão Cosme e Damião, aquela dupla de PMs que a pé conseguiam evitar os crimes e satisfazer os anseios da população?

Os policiais de Brasília são os mais bem pagos do país. Felizmente um problema a menos, porém apesar do salário digno, o sistema não funciona. Falta motivação, falta incentivo para melhor produzir e por conseqüência sobra insatisfação. No Brasil acontece um fenômeno administrativo: na polícia existe concurso para chefe onde na maioria das vezes aquele que comanda a investigação nunca investigou. Faz concurso para um cargo que não se comunica com os demais e já começa a trabalhar chefiando. Deve ser fácil perceber que o resultado obviamente não seria dos melhores.

Essa estrutura ditatorial acontece de forma muito parecida nas polícias civis, dos estados e também na polícia federal. Nos países que encaram de forma séria os problemas advindos da criminalidade, as polícias são estruturadas baseadas em critérios técnicos e objetivos e no Brasil em indicação política ou na amizade. Muitas vezes ainda em retribuição a favores, o que pode se transformar, por si só, em mais um monte de outros problemas. Qual é dificuldade para se entender que somente o melhor investigador poderia chefiar uma investigação? Nenhuma, pois qualquer um entende, com exceção dos administradores, que por sua vez também não sabem administrar, nem sequer apresentam currículos adequados para a função pública que exercem, mas apenas a indicação subjetiva, com raríssimas exceções.Como pode um policial experiente, acostumado à vida de rua, conhecendo o crime por experiência e enfrentando-o há vários anos, ser chefiado por um jovem concurseiro que estudou muito e conseguiu passar na prova. Isso não basta, pois mesmo sem tirar-lhe o mérito da aprovação do concurso que é dificílimo, isso não o qualifica para combater a criminalidade.

Na polícia federal, por exemplo, pesquisas foram feitas entre os próprios policiais e ficou provado o alto índice de desmotivação e desejo de deixar o órgão por conta da insatisfação com o sistema, além da falta de vocação dos novos policiais. O que está errado, o policial ou o sistema em que ele está inserido? O fato de não existir uma carreira em que possa ser reconhecido ao demonstrar sua capacidade é um dos principais redutores do estímulo para prestar bons serviços.

Respeitando-se as devidas proporções, essa situação pode também ser verificada nas polícias civis e também na militar, pois o ser humano nunca pode ser esquecido e quando se deseja resolver o problema da criminalidade, deve-se providenciar a estrutura adequada para o policial trabalhar, bem como a motivação necessária para que o resultado seja alcançado dentro das demandas sociais.

No momento em que as autoridades conseguirem priorizar o trabalho técnico e objetivo em detrimento da subjetividade e arranjos políticos, certamente estaremos dando um passo importantíssimo para nos afastarmos da insegurança pública.


 
(*)CLÁUDIO AVELAR é Presidente do Sindicato dos Policiais Federais no DF, bacharel em Direito e Administração, especialista em Direito Público.

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