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mar 01

SERVIDOR, O PREFERIDO – Correio Braziliense

  • 1 de março de 2010
  • Notícias

A renda elevada e a estabilidade no emprego deram ao servidor público o status de consumidor preferencial. Comparado ao cliente comum, quem trabalha para o governo recebe tratamento VIP de bancos e do varejo. São tantas as condições especiais que financiar o carro, tomar empréstimos, comprar a casa própria ou até mesmo cursar uma faculdade ganharam ares de pechincha. Ao lado das famílias da classe C — com renda entre quatro e 10 salários mínimos —, o funcionalismo se transformou no alvo predileto de quem quer vender ou emprestar.

Quintino Rodrigues de Lima, 48 anos, é agente administrativo no Ministério da Justiça e sentiu na pele a confortante sensação de ser disputado. Há dois anos, quando precisou de dinheiro para fechar a compra de um imóvel, chegou a pensar que pagaria caro pelo empréstimo, mas não. “Procurei bastante quem tinha os juros e os prazos melhores. Fui a quase todos os bancos. A cada hora me ofereciam uma coisa diferente”, lembra. No fim, depois de analisar todas as propostas, acabou optando pelo crédito consignado da agência onde já recebe o salário do mês. “Deram até isenção na taxa de manutenção da minha conta. Posso dizer que, nessa hora, valeu a pena ser servidor”, brinca.

Nos últimos anos, a concorrência bancária aumentou e, ao que tudo indica, ainda não atingiu seu pico. A face mais visível desse fenômeno está no crediário. Há pacotes completos que vão desde financiamentos personalizados — se o tomador for correntista do banco —, até prazos a perder de vista para quitar o empréstimo. Vantagens que o assalariado da iniciativa privada não tem. “É um bom negócio tanto para quem empresta como para quem toma o empréstimo”, diz Alcides Leite, professor de Economia da Trevisan Escola de Negócios. Segundo ele, as instituições financeiras estão descobrindo como cativar algumas de suas melhores faixas de clientes, entre as quais o servidor público. “Os bancos aderiram à política do pague um, leve dois”, completa.

As iscas para atrair o funcionalismo estão por toda parte. Os bancos públicos, responsáveis pelo pagamento dos salários de quase todo o pessoal da União, estão na dianteira e abocanharam a maior fatia do bolo(1). A Caixa Econômica Federal, por exemplo, oferece descontos na tarifa da cesta de serviços, primeira anuidade do cartão de crédito grátis, cheque especial com juros entre 6,75% e 1,15%, crédito consignado a custo reduzido, financiamento habitacional com juros de 8,2% ou 9,5% ao ano, além de planos de previdência exclusivos. Já o Banco do Brasil facilita a compra de imóveis e chega a abrir mão de taxas embutidas na contratação de outras modalidades de financiamento.

Os grandes do setor privado, como Itaú-Unibanco, Bradesco, Santander e HSBC, também têm em seus menus produtos personalizados para os servidores. Seguros, empréstimos consignados e financiamentos imobiliários a taxas reduzidas são os mais ofertados. As redes bancárias particulares apostam na migração de clientes insatisfeitos e traçam planos para conquistar a preferência dos servidores que todos os meses ingressam na máquina. O sucesso do avanço dessas instituições, no entanto, está ligado a trâmites burocráticos como a expansão da rede em cidades onde há muitos servidores públicos e ao aumento do número de convênios com órgãos da administração federal.

Casa e diploma

A concorrência entre os bancos é tão agressiva que analistas advertem que, mais cedo ou mais tarde, o setor financeiro terá de fazer algum tipo de depuração. Para alguns, o mercado está saturado. “O elástico esticou demais. Já virou um leilão”, avalia Ricardo Coelho, consultor em varejo bancário. Segundo ele, mais do que “laçar” o cliente a qualquer custo as redes precisam agregar serviços. “Do banco, as pessoas querem as coisas óbvias, o simples e o barato. Está faltando criatividade, está faltando abrasileirar a coisa”, justifica.

Informação é a melhor arma para quem quer tirar proveito da situação. Saber qual o melhor tipo de financiamento ou onde contratá-lo exige pouco esforço do servidor. As ofertas estão por toda parte e são tantas que uma simples pesquisa dá a ideia exata do que virá pela frente. E a regra não se restringe apenas aos bancos. Em estados como Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo, construtoras anunciam descontos, prazos e planos de pagamentos diferenciados para quem é servidor.Já é possível financiar até 100% do valor do imóvel novo ou usado e pagar juros pós-fixados que variam de 8,4% a 11,5% ao ano. Descontos para pagamentos à vista e liberação de crédito sem a apresentação de tantos documentos também são práticas recém-chegadas às prateleiras. As empresas do setor habitacional, apoiadas por convênios ou incentivos fiscais do governo, querem mais. “O servidor faz parte de um público importante para qualquer segmento, ainda mais em financiamentos de longo prazo. A inadimplência é quase nula. Além disso, esse profissional compra um imóvel agora e outro daqui a pouco. Ele fica fidelizado”, resume um gerente de construtora com atuação em Belo Horizonte e Brasília.

No Rio de Janeiro, uma universidade particular inovou. Na esteira das promoções lançadas por empresas e bancos, a instituição decidiu mobilizar os departamentos de marketing e financeiro, e lançou um programa especial de bolsas para servidores públicos federais, estaduais e municipais — ativos ou aposentados. A iniciativa deu certo. O aluno recebe 10% de desconto no semestre da matrícula e, se pagar as mensalidades até o dia 10 de cada mês, ainda receberá um bônus extra de 5% no semestre seguinte, até o limite de 20% por semestre.

1 – Todos os perfis

As atenções dos bancos não estão voltadas apenas para os servidores da ativa. Nos últimos anos, os aposentados ganharam importância. Produtos específicos como seguros de vida e financiamentos para a compra do segundo imóvel se espalharam pelo mercado. Os inativos do setor público se destacam pela remuneração média elevada, especialmente no Judiciário e no Legislativo.

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