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fev 23

CARTA (QUASE) FECHADA AO DELEGADO CÉLIO

  • 23 de fevereiro de 2011
  • Notícias

 Valacir Marques Gonçalves

Doutor Célio,

Estou indignado. Li, no portal da Federação Nacional dos Policiais Federais/Fenapef, alguns comentários com críticas ao Senhor, por ter representado contra o agente Josias, Diretor de Comunicação da entidade. Embora seja rotina a exposição de gente talentosa a críticas, a sua reação era previsível. Fique frio, o Josias mereceu! A maioria dos policiais federais, certamente, não concordou com as críticas feitas por ele. Os critérios utilizados para selecionar candidatos ao “Curso de Especialização em Ciência Policial e Investigação Policial”, com certeza, são exemplares. Os que criticam um dia entenderão a missão da “Coordenadoria de Altos Estudos”.

Mais: não dê importância às críticas. Elas são feitas por uma gente estranha, que confunde utopia com projeto. Gente que imaginou que os critérios poderiam ser melhor discutidos, até comparados com alguns utilizados no Programa Nacional de Segurança Pública. O Diretor de Comunicação da Federação, Jornalista e bacharel em Direito, não pode, realmente, opinar sobre um assunto que interessa apenas aos organizadores do curso. Ele estava precisando ser enquadrado. Fiquei sabendo que Vossa Senhoria não ficou por aí – está pedindo uma indenização de vinte mil reais. Parabéns! Isso servirá de exemplo. Arranque essa grana dele, ele aprenderá a não ser tão metido. Considerar absurda a exigência de graduação em ciências jurídicas, para curso de especialização na área policial, é imperdoável mesmo.

 Mais ainda: comentar que o curso teria suscitado uma polêmica em torno da concepção quanto à natureza da ciência policial e da investigação criminal. Maldade! Está na cara que não há intenção de privilegiar candidatos formados em Direito, quando foram excluídos, do processo seletivo, agentes, escrivães, papiloscopistas e peritos criminais federais, com formação em outras áreas. Como podem criticar algo tão justo, tão coerente? Como podem afirmar que a “Coordenadoria de Altos Estudos” ignora a natureza da profissão, que os conhecimentos pertinentes à ciência e à investigação policial têm caráter interdisciplinar e multidisciplinar? Mas o Josias é mesmo terrível. Disse que policiais qualificados, sem formação jurídica, podem contribuir para a produção do conhecimento. Ninguém entende como ele pode defender tal absurdo.

Sei que o Senhor não precisa de conselhos, mas vou cometer a ousadia. Mantenha suas ideias – a realidade é que precisa ser modificada. Ela diz, conforme pesquisou o Josias (sempre ele), que, não por acaso, grande parte das pesquisas, teses acadêmicas, bibliografia sobre segurança pública, criminologia, violência e sistema, e técnicas de investigação criminal, têm sido produzidas por sociólogos e antropólogos. Juntam-se a eles cientistas políticos, jornalistas, médicos legistas, psicólogos e pesquisadores de outros ramos – não necessariamente da área jurídica -, muitas vezes, em equipes multidisciplinares. Um dia entenderão que o Senhor tinha razão, a tal de realidade é que teimava em dizer o contrário – fato anteceder norma é mero detalhe.

Mais insanidades: afirmar que é absurda a exigência de formação jurídica para o estudo da ciência social, que isso entra na contramão da tendência de respeitadas instituições acadêmicas, tanto nacionais quanto de países do Primeiro Mundo. Que o pré-requisito de formação em ciências jurídicas não consta nos editais de seleção de vários outros cursos similares de pós-graduação. Que o público alvo de muitos desses cursos são os profissionais de segurança pública, e que as diversas instituições de ensino superior que oferecem esses cursos admitem formação em nível superior em qualquer área do conhecimento. Isso não pode ser verdade.

Concluindo. Não fique aborrecido comigo. Certamente vão querer me intrigar com o Senhor. Não vão conseguir. Acredite, vibro com o seu trabalho. Sei que corro um risco enorme de ser mal interpretado, espero que não pense em me processar. Se isso acontecer, vou me socorrer dos direitos humanos, mas sem usar a Declaração Universal da ONU. Prefiro os Estatutos do poeta Thiago de Mello, que no artigo quinto, diz:

“Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura das palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo, porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa”.

Fico por aqui, um abraço afetuoso do seu admirador

Valacir

Cidadão brasileiro, gremista, com os direitos políticos em dia.

e-mail vala1@uol.com.br

blog    www.valacir.com

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