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dez 03

FAROESTE NA SELVA – Revista Época

  • 3 de dezembro de 2009
  • Notícias

O calendário da infâmia resolveu eternizar a data 3 de dezembro de 1999 na memória da Polícia Federal brasileira. Nesse dia, o agente federal Roberto Simões Metzingen foi assassinado em Rondônia por um bando de traficantes de drogas. Feridos a bala, os policiais Adílson Vieira e Noé Lacerda Jr. ficaram abandonados às margens do Rio Guaporé.

Naquele trecho, as águas do Guaporé são infestadas de piranhas. Existem onças na mata onde os agentes sobreviveram para cumprir a missão que lhes fora confiada pelos algozes de Metzingen: contar ao resto do mundo como são tratados pelos narcotraficantes da região aqueles que se atrevem a enfrentá-los. Os três federais haviam ousado tentar prender uma quadrilha que age na fronteira com a Bolívia. Um foi assassinado. Dois voltaram para descrever a mais atrevida ação empreendida por narcotraficantes contra o que representa, a rigor, o braço policial da União.

O Estado de Rondônia é uma esquina do Brasil. Localiza-se onde o mapa nacional faz uma curva radical rumo a oeste. Dois terços dos 238.512 quilômetros quadrados são cobertos pela Floresta Amazônica. Não existe uma única ferrovia, uma única rodovia totalmente asfaltada. Terra sem lei antes de 1982, quando Rondônia era território federal, continua assim às vésperas do ano 2000, um Estado com 1,2 milhão de habitantes. Cerca de 800 mil deles chegaram do Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e de São Paulo em procissões organizadas por programas de colonização. São cinco habitantes por quilômetro quadrado.

A operação desencadeada para a captura dos assassinos de Metzingen assemelha-se à região: é grande e desorganizada. O agente Noé Lacerda Jr. espera recuperar-se dos ferimentos sofridos na região pélvica a tempo de juntar-se aos colegas. Ele quer justiçar o amigo morto e também se vingar dos homens que o humilharam. Adílson Vieira recusa-se a falar sobre o caso. No momento, ele nem sabe se continuará na PF. Um agente sempre está exposto aos riscos da profissão – e um deles é topar com assassinos. O que Adilson Vieira não sabe é se vale a pena permanecer em combate.

Em 1992, o juiz italiano Giovanni Falcone foi assassinado em Palermo, na Sicília, quando preparava a mais dura ofensiva empreendida contra a Máfia. Em resposta, os homens da lei italianos fecharam as fronteiras da Sicília e intensificaram o ataque. A Máfia não se reergueu, e a Sicília de hoje se parece mais com o restante do país. Ainda é cedo para avaliar as conseqüências do drama ao qual Adilson e Noé sobreviveram para o futuro de Rondônia. O episódio evoca histórias que inspiraram filmes que contam como foi a conquista do Oeste dos Estados Unidos – a região onde hoje reluzem o Texas, a Califórnia, o Kansas ou o Colorado.

No Oeste americano, durante os séculos XVIII e XIX, havia muito ouro, muitos índios, muitas mortes e poucas leis. No Oeste brasileiro, há muita droga, algum ouro, poucos índios e muitos garimpeiros. Também há muitas mortes e nenhuma ordem. Até o início deste ano, o Estado do Acre também poderia servir de cenário para enredos semelhantes ao encenado em Rondônia. Por decisão do governador petista Jorge Viana, empossado em janeiro, a Polícia Civil e a Militar passaram a agir em conjunto com a Polícia Federal – e as coisas começaram a mudar. O ex-coronel PM Hildebrando Pascoal está preso. Teve o mandato de deputado federal cassado, e seu bando engrossado por 27 policiais militares foi desmontado. Roubavam, torturavam e matavam em parceria com outros barões do banditismo.

Em Mato Grosso do Sul, onde parecia ter sido institucionalizado em definitivo o assassinato por encomenda de adversários políticos ou desafetos pessoais, está virtualmente resolvido o episódio da execução da prefeita de Mundo Novo, Dorcelina Folador (leia reportagem à pág. 43). Há algum tempo, o vazio legal sul-mato-grossense comparava-se ao que se contempla hoje em Rondônia. Agora, qualquer crime, seja qual for seu autor, começa a ser tratado como caso de polícia.

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