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nov 23

MERCADO DE ARMAS NO RIO E EM SP É LUCRATIVO – Folha de S. Paulo

  • 23 de novembro de 2009
  • Notícias

O contrabando de armas para criminosos segue as mesmas regras comuns da economia legal, regulado pela mais básica das leis: a da oferta e da procura. O mercado está tão lucrativo que a novidade do momento no Brasil é a utilização esporádica de pequenos aviões para contrabandear armas como fuzis automáticos. Previamente, apenas cargas mais valiosas, como drogas, justificariam o uso de aeronaves.

O grande fluxo de armas para os dois principais mercados do país -criminosos da Grande São Paulo e do Grande Rio- segue mesmo é por via rodoviária, vindos da mesma direção básica: as porosas fronteiras com Paraguai e Bolívia.

Lotes maiores chegam misturados a cargas de caminhões. Os frigoríficos são boas opções, pois é difícil que um policial rodoviário queira se embrenhar no meio de carcaças de bois para vasculhar um eventual contrabando. Caminhões-tanque também são boas opções: as armas vão bem embrulhadas dentro do líquido.

O armamento, segundo se depreende pelas amostras apreendidas, tem origem muito variada.

Os fuzis automáticos preferidos são dos dois calibres mais comuns no mundo ocidental, o 5,56 mm padrão Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) -caso do M-16 ou sua versão semiautomática vendida livremente nos EUA, o AR-15- e 7,62 mm padrão Otan (caso das várias versões do fuzil belga FAL, utilizado pelo Exército). No momento, apenas Chile e Brasil produzem fuzis na América do Sul.

A Argentina chegou a produzir sua versão do FAL, mas sua produção está parada. Fuzis FAL argentinos já foram apreendidos no Brasil com criminosos, assim como armas que eram dos exércitos da Bolívia e Paraguai.

Mesmo uma arma razoavelmente antiga -como um fuzil americano BAR, que a Força Expedicionária Brasileira usou na Segunda Guerra- continua sendo potente hoje nas mãos de criminosos. Conforme o popular clichê da imprensa, “é capaz de derrubar helicópteros” (caramba, uma pedrada bem colocada basta para derrubar um helicóptero sem blindagem!). E certamente perfuraria um carro-forte se armado com a munição adequada.

As Forças Armadas brasileiras são uma pequena fonte de armas. Além de elas estarem bem vigiadas internamente, atacar um quartel é uma medida rara e arriscada para obtenção de armas. Em 2009, apenas 16 armas foram roubadas ou furtadas do Exército; e 12 já foram recuperadas.

Algumas armas do crime vêm direto de Miami por navio para os países vizinhos antes de começarem a jornada por terra. Fuzis Ruger, por exemplo, são apenas fabricados nos EUA.

Uma outra rota de contrabando, usada principalmente no Rio, é aquela feita por navios. Como os “clientes” estão nos morros ali perto, fica fácil usar uma lancha ou um aparentemente inocente pesqueiro para receber o armamento antes mesmo de o navio atracar. Por não ter “fregueses” tão próximos, Santos, não costuma estar na rota.

A rota por mar tende a ser mais usada por contrabandistas de um modelo de arma mais raro no país, mas que começa a se fazer presente: os fuzis russos da série AK, conhecidos como “a Coca-Cola das armas”, pois estão em toda a parte, são produzidos em muitos lugares, e a quantidade produzida foi prodigiosa: 60 milhões.

O russo Mikhail Kalachnikov -o “K” do nome; o “A” é de “automática”- produziu uma arma robusta e simples de usar, também calibre 7,62 mm, mas disparando uma munição mais curta que a do padrão Otan. A AK-47 (que data de 1947), sua versão melhorada AKM, e uma versão de calibre menor (AK-74, calibre 5,45 mm), costumam ser contrabandeadas de países do leste europeu (os ex-satélites do mundo comunista), e de países africanos que viveram guerras civis, como Angola, onde uma arma dessas é vendida literalmente a preço de banana. O preço, claro, aumenta quando chega nos morros cariocas. Questão de mercado, de oferta e de procura.

 

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