Um ano depois da crise que gerou o afastamento de toda diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e o primeiro grande choque entre a cúpula do Judiciário com o Palácio do Planalto, a polícia federal terminou a investigação sobre o suposto grampo telefônico que teria captado uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO). A conclusão do inquérito não aponta autoria do crime e nem mesmo confirma que os telefones de Mendes e Torres foram mesmo grampeados.
Como o inquérito ainda está coberto pelo segredo de justiça, a polícia federal aguarda apenas uma autorização da Justiça federal para explicar o resultado da investigação em entrevista coletiva. O ponto principal da mais longa investigação federal sobre grampo é um inédito levantamento, sustentado por fartos laudos periciais, sobre a fragilidade das redes das redes telefônicas do Senado, do STF e de outros órgãos públicos, até segunda-feira a única possibilidade que considerava a hipótese de que espiões possam ter grampeado os telefones de autoridades.
As falhas de vigilância e a facilidade com que os arapongas podem acessar os telefones fixo, celulares ou mesmo a internet, levaram a polícia federal a desenvolver uma série de sugestões que serão repassadas aos órgãos públicos de Brasília. O resultado da investigação também deverá gerar matéria prima para mudanças na legislação que trata do sigilo telefônico e a repressão contra arapongas que infestam a rede de telefonia.
Publicada pela revista Veja no final de agosto do ano passado, a denúncia do grampo agravou a crise institucional iniciada um mês e meio antes com a deflagração da Operação Satiagraha, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Dantas. A notícia fez com que Gilmar Mendes adiasse uma viagem programada para a África do Sul para encontrar-se com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ele havia prometido “chamar às falas” por causa da suposta espionagem que, àquelas alturas, a revista havia sustentado ter partido da Abin.
Estado policial
Mendes reforçou o discurso sobre o “estado policial” e Lula decidiu então afastar “provisoriamente” o então diretor da Abin, delegado Paulo Lacerda, ex-diretor da PF, e toda a cúpula do órgão. Lula rendeu-se à época a uma sugestão do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apontou a hipótese, até hoje não comprovada, de que a Abin dispunha de equipamentos para grampear telefones.
Lacerda sangrou durante quatro meses, encostado numa sala anexa ao Palácio do Planalto, até que o governo optou por uma saída política: nomeou o delegado adido policial em Portugal, encerrando a crise antes da conclusão das investigações sobre o grampo. O delegado William Morad ouviu mais de 100 pessoas, requisitou dezenas de perícias e fez um pente fino nas centrais telefônicas do Senado e do STF para descartar as suspeitas que abalaram a República. Encerrou o inquérito sem encontrar o áudio que comprovaria a espionagem e nem os arapongas que teriam participado do grampo.






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