
O Palácio do Planalto terá que decidir, logo nos primeiros meses de 2009, qual será o destino de pelo menos quatro personagens centrais de uma das piores crises que envolveu o próprio governo e os demais poderes da República este ano. Na berlinda, estão o diretor afastado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Paulo Lacerda, a Polícia Federal e os ministros da Justiça, Tarso Genro, e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Jorge Félix. Todos vivem hoje uma constante animosidade depois da suspeita de vazamentos de escutas telefônicas da Operação Satiagraha, desencadeada pela PF e que teve como alvo o banqueiro Daniel Dantas.
Lacerda foi afastado da Abin devido à acusação, ainda não confirmada, de que a agência fez grampos ilegais em telefones de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Em seguida, o dirigente foi criticado por ter cedido arapongas para ajudar o delegado Protógenes Queiroz nas investigações da Operação Satiagraha. Em sua defesa, saiu apenas seu superior, Jorge Félix. Ele considerou legal o auxílio e descartou que a Abin tenha vazado informações sigilosas. Como a investigação interna da Abin foi concluída sem ter sequer confirmado a existência do grampo, interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que Lacerda poderá ser reconduzido ao cargo apenas para garantir uma saída honrosa da função. O diretor da agência retornaria mas, por decisão própria, pediria demissão em seguida.
Reação
Mesmo não conseguindo fazer o que pretendia, que era a reestruturação da corporação, Lacerda sabe que sua missão na Abin terminou, mas quer voltar ao cargo para sair de livre e espontânea vontade. Não deseja ser demitido, até para não manchar a folha de serviços prestados ao governo, que inclui ter sido dirigente da Polícia Federal por quatro anos. Se o governo tentar uma retirada brusca de Lacerda, pode arrastar o ministro-chefe do GSI, que, por ser superior hierárquico do diretor, também foi responsável pelas ações da agência.
Em contrapartida, o foco das atenções se voltaria para Tarso Genro e para o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa. Ainda existem setores simpáticos a Lacerda na corporação, que poderiam revoltar-se com a demissão do antigo chefe. Corrêa conta com a simpatia do Palácio do Planalto e de Tarso Genro, mas ainda divide a Polícia Federal, onde está há mais de um ano.
O diretor da PF fez desafetos na instituição ao afastar todos os superintendentes, diretores e coordenadores que tinham ligação com o ex-dirigente. Com a retirada de Lacerda da Abin, há o risco de os atuais adversários de Corrêa fazerem crescer as desavenças hoje existentes, o que pode custar seu cargo. Com isso, Tarso também ficaria na berlinda.
No momento atual, tudo depende do resultado das investigações dos grampos no Supremo, que parece não avançar. A PF nem mesmo tem condições de dizer, depois de 120 dias de apuração, se as escutas realmente existiram. Com a possibilidade de pedir mais prazo para concluir o trabalho, já que espera os resultados de perícias feitas nos sistemas do STF, Senado, Abin e companhias telefônicas, a Polícia Federal poderá aumentar o desgaste de Lacerda, que já dura quatro meses.






Comments are closed.