Mais da metade dos funcionários da PF, incluindo agentes e delegados, não teria dúvidas na hora de deixar a instituição para ocupar outro cargo público. Somente 24% dos servidores estão satisfeitos
Uma pesquisa realizada entre os funcionários da Polícia Federal (PF), concluída em dezembro, revelou um risco para a sociedade: o desinteresse desses servidores pela profissão. Feita pela rede interna de computadores da instituição e sem a identificação do pesquisado ou de sua função, a enquete obtida com exclusividade pelo Correio mostra que 57,8% dos delegados, peritos, papiloscopistas, escrivães, agentes e pessoal administrativo pretendem deixar a carreira na primeira oportunidade. A amostra atingiu mais de 3,7 mil pessoas e constatou que a grande massa – 52,95% – aguarda ansiosa para fazer concurso em outra área da carreira pública. Além disso, 4,86% dos funcionários sonham com uma chance melhor até no setor privado.
Mesmo classificado no topo da lista de cargos estatais, com bons salários, estabilidade no emprego e prestígio por serem considerados carreira imprescindível ao funcionamento do Estado, o ofício de policial federal não encanta mais. Pouco mais da metade dos 14,4 mil servidores da PF almeja uma nova profissão, de preferência bem longe das delegacias. Somente 24,14% dos pesquisados estão inteiramente satisfeitos com a carreira e pretendem continuar nela até a aposentadoria. Outros 18% permaneceriam na policia, só que em cargo distinto (veja tabela). “A questão é a vocação. A pesquisa mostra que há pessoas em trânsito na Polícia, se preparando para fazer concursos para juiz ou promotor. Elas têm um outro sonho, mas ficam aproveitando o bom salário”, admite o diretor geral da PF.
De 2004 até o fim do ano passado, a polícia realizou dois concursos para agentes, um nacional e outro regional. Nesse período treinou na Academia Nacional de Polícia 1.866 pessoas. Desse grupo, 471 pediram exoneração nos últimos quatro anos, deixando abertas 25,2% das vagas que deveriam estar inteiramente ocupadas. Fenômeno parecido aconteceu com os escrivães, só que em proporção muito maior. Nos últimos quatro anos a PF abriu 705 vagas para a função, mas 411 profissionais dessa área desistiram da profissão logo depois do curso e de trabalhar pouco tempo. Representaram 58,2 % de desistência.
É um exército de servidores treinado em uma das melhores escolas de polícia da América Latina que troca a PF por outra função pública ou pelo setor privado. “A PF evoluiu em termos de salário, é uma instituição respeitável e tem um trabalho gratificante, mas também atraiu o profissional de concurso em razão do elevado nível de escolaridade exigido nos exames. Não posso ter 50% em trânsito na Policia, o cidadão não merece isso”, reconhece o diretor geral, Luiz Fernando Corrêa.
Mudança
Um dos descontentes com o trabalho na PF é o escrivão Flávio Werneck. Aos 33 anos e na polícia há mais de sete, o advogado conseguiu ser transferido para a assessoria do Ministério da Justiça. Está se preparando para fazer concurso para promotor público. Se passar, vai ganhar o dobro do que recebe hoje. “Tenho capacitação e conhecimento jurídico, mas não utilizo no meu trabalho. Entrei na polícia com garra e esperando ajudar a fazer um País melhor, mas com o tempo fui perdendo o interesse porque fui assumindo atribuições menores”, lamenta Werneck.
Outra parte da enquete mostra quadro preocupante. Mais de 42 % dos policiais e agentes administrativos classificam o trabalho da Corregedoria da instituição “incompleto, com caráter apenas disciplinar e pouco correicional”. Outros 30% apontam o setor como ineficiente e sem efeitos disciplinares. Mais de 14,2% definem a Corregedoria como “deficitária” (veja tabela). Segundo Corrêa, uma outra pesquisa interna foi realizada pela CNT/Sensus mas ainda não concluída mostrou que 70% do efetivo da PF estão satisfeitos com o emprego, mas o diretor não divulgou o conteúdo integral do levantamento.
Quem consegue ser aprovado no rigoroso concurso para agente, por exemplo, começa a trabalhar com salário inicial de R$ 8 mil mensais. No final da carreira poderá ganhar até R$ 13,5 mil, mais do que fatura alguns níveis da carreira diplomática, e sem a necessidade de ser poliglota. O caso dos delegados é ainda mais confortável.
Nesse cargo os rendimentos começam com R$ 9 mil e no final da carreira chegam a R$ 19 mil mensais. Ganhos maiores do que recebe um ministro de Estado, que tem vencimento de R$ 12 mil. Com soldos mais modestos, o servidor administrativo da PF recebe próximo de R$ 4 mil. Nada mal para quem não precisou ter cursado universidade e passa a ter estabilidade e salário médio acima do pago no setor privado ou em outras áreas estatais.
Concursos criticados
Elevado grau de frustração e insatisfação profissional, falta de perspectivas na carreira, concursos malfeitos que selecionam não vocacionados e indefinição de atribuições. Esse é o diagnóstico do atual clima de trabalho na Polícia Federal feito ao Correio pelas associações, federações e sindicatos que representam os servidores das cinco funções da Polícia, de agentes administrativos a delegados. Esses sintomas podem explicar porque 57,8% dos funcionários da instituição revelaram na enquete interna concluída no fim do ano passado o desejo de deixar a PF, fazer concurso para outro cargo público ou ainda tentar conseguir um emprego no setor privado.
O policial Marcos Leôncio Ribeiro, diretor da Associação de Delegados da Polícia Federal (ADPF), acredita que a pesquisa revela um protesto dos servidores, hoje contaminados pela discussão da proposta de lei orgânica da Polícia. Segundo ele, a frustração da categoria ficou constatada quando as regras dos concursos para delegados, agentes, escrivães e outros profissionais da PF foram alteradas e os aprovados perceberam que poderiam ganhar mais em outras funções públicas que exigem a mesma dificuldade nos exames. Ele lembra a criação, em 2005, da terceira classe para delegados iniciantes que começavam no trabalho recebendo menos que os agentes especiais. Isso, de acordo com o delegado, provocou insatisfações insuperáveis entre chefes e subalternos. “Os processos de seleção, treinamento, formação e a organização do trabalho têm-se revelado inadequados”, critica Leôncio.
Perspectiva
Já o presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Marcos Wink, credita o elevado índice de insatisfação interna na PF à falta de perspectivas nas carreiras. “Hoje com 10 anos de trabalho o policial está em final de carreira e não tem mais o que fazer. O profissional termina ficando com atribuições incompatíveis com sua experiência e seu conhecimento jurídico”, analisa. Ele lembra que um levantamento feito pela federação constatou que, desde 1997, cerca de 90% dos delegados tinham feito concursos para os cargos de juiz e procuradores federais. Um deles é o diretor geral Luiz Fernando Corrêa. O chefe da PF chegou a cursar a escola do Ministério Público, mas optou pela carreira de delegado com que sempre sonhou.
Wink também aponta o estilo cartorial, burocratizado e declaratório da PF como outra fonte de frustração. Ele defende a extinção do inquérito como instrumento de investigação policial. A instauração de inquérito nos atuais moldes só existe no Brasil. “Com o inquérito, a Polícia acabou com a investigação clássica e transformou o trabalho de agentes e peritos em uma análise da papelada apreendida. Hoje a PF prende e faz busca e apreensão para investigar depois”, lamenta Wink.
O presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Federal no DF, Joel Mazzo, acredita que o índice de insatisfação entre os delegados é ainda maior do que o revelado na enquete interna da PF. Ele criticou a atual direção da Polícia e defendeu uma reforma na atual estrutura administrativa que classificou de arcaica. “A Polícia paga bem, tem boa estrutura e condições de trabalho, prestígio profissional, por que as pessoas querem sair?, questiona. E responde: “Há uma grande desvalorização das diferentes funções dentro da Polícia”.







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